Paixão e Incoerência: a metamorfose do futebol

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Após uma overdose de Copa do Mundo, ponho-me a refletir sobre o futebol, lembrando do livro Futebol: Paixão & Catimba do antigo “Cartola” Osório Vilas Boas. Daí nasceu a idéia de abordar o “esporte bretão”, do qual já fui fanático em eras pretéritas. Vamos lá:

Na segunda-feira, o doutor Augusto é juiz. Ponderado, equilibrado, fervoroso defensor do contraditório e da ampla defesa. Passa os dias ouvindo versões conflitantes dos fatos, avaliando provas e lembrando às partes que a verdade raramente cabe inteira na boca de uma só pessoa.

Mas no domingo, às quatro da tarde, o doutor Augusto deixa de ser juiz.

Vira torcedor.

E o mais impressionante é a velocidade da transformação. Basta o árbitro deixar de marcar uma falta perto da área para que aquele homem, que dedicou trinta anos à busca da imparcialidade, levante do sofá e grite:

– Ladrão!

A esposa, acostumada à metamorfose semanal, nem se assusta. Continua descascando laranjas enquanto o marido condena o bandeirinha sem direito a recurso.

Na rua ao lado mora seu Agenor, pai exemplar, defensor do diálogo familiar, inimigo declarado de qualquer forma de violência. Isso na vida comum, porque no clássico de domingo ele e o filho torcem por clubes diferentes.

A partida começa às dezesseis horas.

Às dezesseis e quinze, já não se tratam pelo nome.

Às dezesseis e trinta, discutem estatísticas.

Às dezessete, revisitam erros cometidos pelos antepassados.

E às dezoito, após o apito final, juram que nunca mais assistirão juntos a um jogo.

Promessa renovada e descumprida toda semana.

O futebol produz esses milagres.

Consegue transformar advogados de defesa em promotores, juízes em acusadores, pais em adversários e homens pacatos em especialistas internacionais em arbitragem.

O mais curioso é que todos sabem disso. Sabem que o campeonato acaba. Sabem que o mundo continuará girando. Sabem que a vida é maior do que noventa minutos.

Mas, durante aqueles noventa minutos, fingem que não sabem.

E talvez seja exatamente esse o encanto.

Num mundo que exige razão para tudo, o futebol oferece um raro território onde a incoerência é permitida, a parcialidade é celebrada e a paixão não precisa pedir desculpas à lógica.

Na segunda-feira, o doutor Augusto voltará a ser juiz.

Seu Agenor voltará a ser pai.

A ordem será restaurada.

Até o próximo domingo.

Porque há coisas que a razão explica.

E há um pênalti não marcado aos quarenta e sete do segundo tempo.

Esse nem a filosofia resolve.

Termino por aqui, rendendo efusiva homenagem à sua excelência, a bola!



Fonte: HOJE BAHIA

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