Existe um esporte nacional que nunca entrou no programa dos Jogos Olímpicos, mas reúne milhões de praticantes: falar mal do Brasil. Para esse time, nada presta. Se uma estrada é inaugurada, reclamam do acostamento. Se a economia cresce, dizem que poderia crescer mais. Se a pobreza diminui, lembram que ainda existem pobres. Se um brasileiro conquista o mundo, logo aparece alguém para explicar por que aquilo não vale tanto assim.
É claro que o Brasil tem problemas. Seria tolice negá-los. Ainda convivemos com desigualdade, violência, corrupção, deficiências na educação e na saúde. Mas uma coisa é exigir que o país melhore; outra, bem diferente, é fingir que ele nunca melhorou.
Há quarenta anos, vivíamos sob o peso de uma ditadura recém-encerrada. A democracia ainda engatinhava. A inflação corroía salários e destruía sonhos. Dependíamos do Fundo Monetário Internacional para atravessar crises econômicas. A expectativa de vida era menor, o analfabetismo era mais elevado e a pobreza atingia uma parcela muito maior da população.
Nesse período, o Brasil consolidou sua democracia, estabilizou a moeda, ampliou o acesso à educação, elevou a expectativa de vida para mais de setenta e seis anos, reduziu significativamente o analfabetismo, retirou milhões de pessoas da pobreza extrema, saiu do Mapa da Fome em determinado momento de sua história recente, alcançou pela primeira vez a faixa de alto desenvolvimento humano no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tornou-se uma das maiores economias do planeta e passou a ter voz cada vez mais relevante nas discussões internacionais. Também continuou produzindo ciência, cultura, agricultura competitiva, tecnologia e atletas que conquistam respeito em diversas modalidades olímpicas, além de ter comemorado dois títulos mundiais de futebol nesse período.
Nada disso aconteceu por acaso. Foi fruto do trabalho de gerações inteiras de brasileiros — agricultores, professores, operários, cientistas, médicos, empresários, artistas, servidores públicos e tantos outros que, longe das redes sociais, acordam cedo todos os dias para construir um país melhor.
O viralatismo é uma doença curiosa. Ele nos convence de que tudo o que vem de fora é superior e de que qualquer defeito brasileiro é prova de fracasso nacional. É uma forma de cegueira que enxerga apenas os buracos da estrada e ignora o caminho já percorrido.
Amar um país não significa fechar os olhos para seus erros. Significa acreditar que seus acertos merecem ser preservados e que seus defeitos podem ser corrigidos. O pessimista profissional transforma qualquer conquista em motivo de desprezo. O cidadão consciente faz exatamente o contrário: reconhece os avanços, enfrenta os desafios e trabalha para que a próxima geração encontre um Brasil melhor do que aquele que recebeu.
A história das nações não é escrita por quem repete que nada presta. Ela é construída por aqueles que, mesmo conscientes das dificuldades, continuam acreditando que sempre vale a pena melhorar a casa onde vivem.
O Brasil ainda está longe de ser o país que sonhamos. Mas também está muito longe de ser o país que alguns insistem em pintar. Entre o ufanismo ingênuo e o viralatismo crônico existe um lugar chamado realidade. E é justamente nela que mora a esperança.
Fonte: HOJE BAHIA