O dia em que eu quase esqueci

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Mentira.

Não uma mentira maldosa, dessas que se conta pros outros. Era daquelas mentiras íntimas, necessárias, que a gente conta pra si mesmo pra conseguir atravessar o dia sem desmoronar no meio da rua.

Lembrei disso ouvindo Dorgival Dantas, naquela música que parece escrita por alguém que já perdeu e ainda não tomou conhecimento. Porque existe isso: o amor acaba antes da saudade entender que precisa ir embora também.

O curioso é que, quando um amor termina, ninguém quer parecer o lado que ficou. Há uma espécie de dignidade improvisada em dizer: “Eu já esqueci.” É quase uma medalha invisível, dessas que a gente pendura no peito pra não admitir que ainda dói quando passa na rua onde tudo começou.

Mas o corpo não esquece.

O corpo é traiçoeiro. Ele guarda a memória dos abraços como quem arquiva documentos importantes. Lembra do peso exato de alguém deitado ao lado, do jeito que a mão encaixava “nas curvas da estrada de Santos”, do silêncio confortável que só existe entre duas pessoas que já não precisam se explicar.

E aí a pessoa vai lá e diz, com toda firmeza: “Foi um erro.”

Erro coisa nenhuma.

Erro não deixa saudade.

Erro não faz a gente olhar o celular à noite, só pra confirmar que ninguém enviou mensagem. Erro não faz a gente ensaiar encontros que nunca vão acontecer, nem imaginar respostas para perguntas que ninguém mais vai fazer.

O amor, quando foi amor mesmo, não se desfaz com discurso. Ele vai ficando pelos cantos, feito cheiro de jasmim na casa vazia.

E talvez o mais curioso – ou mais triste, dependendo do humor do dia – é esse pensamento insistente de que ninguém vai amar o outro do mesmo jeito. Não por soberba, mas por uma espécie de convicção silenciosa de quem conhece o mapa inteiro de alguém, inclusive as partes que nem deveriam ser visitadas.

Só que o tempo, esse sujeito paciente, vai fazendo seu trabalho sem pedir licença.

E chega um dia – ninguém sabe exatamente qual – em que a pessoa volta.

Não necessariamente bate à porta. Às vezes volta só na memória, numa música, numa frase qualquer. Às vezes volta de verdade mesmo, com aquele ar de quem acha que ainda existe lugar.

E aí pode ser que encontre.

Ou pode ser que não.

Porque esquecer não é um ato heróico, nem uma decisão tomada numa terça-feira à tarde. Esquecer é um acúmulo de pequenos abandonos: um dia sem lembrar, outro sem doer, outro sem esperar.

Até que, quando a pessoa volta (se voltar), talvez encontre apenas alguém que já não precisa mais mentir pra si mesmo.

E isso, no fim das contas, é o que mais se aproxima de um esquecimento de verdade.

Ou de paz, que dá quase no mesmo.



Fonte: HOJE BAHIA

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