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O aperto de mãos – HOJE BAHIA

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Hoje à tarde eu estava no bar da Taís, aqui em Mar Grande, quando me dei conta de que o ser humano ainda aperta a mão dos outros.

A princípio, até pode parecer uma descoberta banal, mas não é.

Num mundo em que as pessoas se cumprimentam pelo WhatsApp, discutem política pelo celular, terminam namoro por mensagem e mandam “abraços” para quem gostariam de estrangular, o aperto de mão começa a parecer uma ‘tecnologia’ obsoleta.

Mas continua funcionando.

Chega um sujeito.

– Fala, meu irmão!

E estende a mão.

O outro aperta.

Sorrisos.

– Tudo bem?

– Tudo ótimo!

Não está tudo ótimo, evidentemente, mas ninguém pergunta a verdade.

Se perguntasse, o cumprimento demoraria três horas.

– Tudo bem?

– Não.

– O que aconteceu?

– Minha mulher quer se separar, meu filho não fala comigo, estou devendo ao banco e o médico disse que preciso parar de beber e de fumar…

Nesse caso, o aperto de mão perderia completamente a utilidade.

Por isso inventamos o “tudo bem”.

É uma das grandes convenções da civilização.

Tanto faz como você está, se o Bahia perdeu, se o Vitória empatou, desde que a resposta seja ‘tudo bem’.

Comecei a reparar nos apertos de mão no bar.

Há vários tipos.

Existe o aperto de mão burocrático. Aquele que a pessoa oferece a mão como quem entrega um documento no protocolo.

Aperta uma vez.

Solta.

Pronto!

Também existe o aperto de mão político.

Esse é perigoso.

O político não aperta sua mão.

Ele sequestra.

Segura sua mão com as duas, olha nos seus olhos, sorri para você como se tivesse acabado de reencontrar um irmão que julgava morto, quase lhe beija na boca e pergunta:

– E a família?

Você nunca viu aquele homem na vida.

Mas ele sabe que você tem família.

Sabe até que você tem título de eleitor.

Há também o aperto de mão empresarial.

É aquele em que duas pessoas apertam as mãos enquanto imaginam quanto uma pode ganhar em cima da outra.

Sorriem.

– Foi um prazer fazer negócio com você. Tradução: “espero ganhar muita grana às suas custas”.

Existe o aperto de mão entre amigos.

Esse é diferente. Não precisa de força. Às vezes basta o toque. Porque há amizades em que a mão só confirma aquilo que o coração já sabe.

E existe o aperto de mão do homem que quer demonstrar masculinidade.

Esse deveria ser regulamentado pelo Ministério da Saúde.

O sujeito segura sua mão e aperta como se estivesse tentando extrair petróleo dela.

Você sorri.

Por dentro, está procurando uma ambulância.

– Prazer em conhecer!

– O prazer é todo meu.

Mentira.

O prazer, naquele momento, está com ele.

Você só está com a dor.

Fiquei pensando de onde veio essa mania de apertar a mão.

Pesquisei e descobri que é um gesto muito antigo.

Há representações de apertos de mão entre povos da Antiguidade. E uma das interpretações é que mostrar a mão direita vazia significava demonstrar que você não estava armado.

Achei bonito.

O sujeito chegava diante de outro e dizia, sem palavras:

“Olha, estou com a mão vazia”.

Hoje continuamos fazendo exatamente isso.

Só que com uma diferença.

A mão está vazia, mas o bolso, às vezes, não.

E a cabeça, nem se fala.

Talvez o aperto de mão seja uma das poucas invenções humanas que sobreviveram à evolução sem melhorar.

Não tem aplicativo.

Não precisa de senha.

Não depende de bateria.

Não aceita atualização.

Você simplesmente estende a mão.

O outro estende a dele.

E pronto.

Duas pessoas entram em contato.

É uma tecnologia extraordinariamente simples.

Talvez simples demais para o nosso tempo.

Porque hoje preferimos complicar tudo.

Criamos mecanismos para aproximar quem está longe e, ao mesmo tempo, mecanismos ainda melhores para afastar quem está perto.

Podemos conversar com alguém do outro lado do planeta em segundos.

Mas às vezes não conseguimos conversar com quem está sentado ao nosso lado.

Temos mil amigos nas redes sociais.

E não sabemos a quem pedir ajuda quando a vida aperta.

Talvez por isso eu tenha gostado de observar as pessoas apertando as mãos no bar da Taís.

Ali ninguém precisava de senha.

Ninguém precisava de conexão.

Ninguém precisava aceitar os ‘termos de uso’.

Era simplesmente uma mão encontrando outra.

E pensei que talvez seja isso que chamamos de humanidade.

Não sei.

Pode ser que eu esteja exagerando.

Afinal, era fim de tarde e eu já tinha tomado algumas cervejas. Na verdade, duas.

Mas então Taís chegou perto e perguntou:

– Quer outra?

Estendeu a mão para pegar o copo vazio.

Entreguei.

Ela trouxe outra cerveja.

Agradeci.

Ela sorriu.

E me ocorreu que talvez a civilização tenha começado exatamente assim:

Um homem estendeu a mão vazia para outro homem.

O outro, desconfiado, apertou.

E nenhum dos dois morreu.

A partir daí, inventamos a guerra.

Mas isso é outra história.

Por enquanto, fico com o aperto de mão.

Porque talvez ainda exista alguma esperança nesse antigo gesto.

Afinal, quando apertamos a mão de alguém, por alguns segundos pelo menos, estamos dizendo:

“Minha mão está aqui.

A sua também.

Vamos tentar não fazer nenhuma besteira”.

E, considerando a triste história da humanidade, já seria um excelente começo.



Fonte: HOJE BAHIA

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