O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes (70), afirma que o escândalo envolvendo o Banco Master foi atribuído de forma equivocada ao Supremo, sustentando que a crise é “sistêmica” e deveria recair sobre órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central (BC) do Brasil. Para ele, a corte acabou associada ao caso após a revelação das ligações de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com Daniel Vorcaro.
Em entrevista a um jornal de grande circulação do país, Gilmar diz não querer “isentar de responsabilidade quem tem”, mas insiste que o problema não nasceu no tribunal. Ele afirma que as relações de ministros com Vorcaro “certamente estão sendo investigadas”, destacando que cabe às autoridades competentes esclarecer os fatos.
Outro ponto de tensão é o Fórum de Lisboa — um encontro anual organizado pelo ministro em parceria com instituições acadêmicas portuguesas, apelidado de Gilmarpalooza.
Apesar das críticas e do impacto do caso Master, Gilmar afirma que o evento — marcado para 27 a 29 de junho de 2026, na Universidade de Lisboa — segue forte, com “mais de 470 palestrantes”, e rejeita qualquer responsabilidade sobre a presença de investigados em atividades paralelas: “Não temos nenhum controle sobre isso”.
Ao comentar o debate sobre um código de ética inspirado no modelo alemão, Gilmar considera “ingênua” a ideia de que o problema estaria no fórum. Ele diz que regras estrangeiras não se aplicam integralmente ao Brasil e defende que reformas devem respeitar consensos e a cultura jurídica local. Além disso, por mais de uma ocasião o ministro defendeu que o timing político para a criação do instrumento não era adequado, e que a corte não deveria ceder às pressões sobre o tema.
No que diz respeito à queda de confiança no STF apontada pelo Datafolha, o ministro atribui parte do desgaste à forma como perguntas são feitas e à transferência de responsabilidades externas para a corte. Para ele, por exemplo, a crise do Master “não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima” — ao se referir ao mercado financeiro brasileiro.
Questionado sobre conflitos de interesse envolvendo parentes advogados e relações com empresários, Gilmar afirma que o Código de Processo Civil (CPC) já prevê impedimentos e que cabe ao Judiciário e à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) fiscalizar abusos. Ele admite, porém, que “amizades íntimas” exigem cautela.
Em relação às investigações envolvendo Toffoli e Moraes, Gilmar repete que tudo está sob apuração e rejeita conclusões precipitadas: “Qual a relação de causa e efeito?”, questiona. Ele também critica o uso de prisões para forçar delações, alertando para riscos de “autoritarismo penal-judicial”.
Para o ministro, não há uma crise interna no STF ou divisões, mas ele reconhece que o anúncio do código de ética gerou “desinteligência”, sem criticar diretamente o ministro Edson Facchin — atual presidente da corte que defende o instrumento. Por fim, Gilmar defende a continuidade do inquérito das fake news diante do ambiente de radicalização e afirma que reações a ataques, como no caso da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, devem seguir o devido processo legal.
Fonte: HOJE BAHIA