Dizem (adoro começar as crônicas com o “dizem”, um habeas corpus preventivo para as babozeiras que virão) que o brasileiro é mestre em ter fé. Eu acho que tem mais do que isso: a turma tem um crediário aberto com o futuro.
Vivemos comprando coisas no carnê do amanhã. “Na segunda eu começo a dieta.” “Quando me aposentar, viajo para Gramado.” “No mês que vem telefono para Jaiminho.” “Qualquer dia desses leio aquele livro que Lara me deu.” “Depois eu descanso…”
O amanhã virou uma espécie de gerente do Bradesco. Está sempre aprovando empréstimos e nunca pede garantia, a não ser um rim, sua casa etc.
Foi então que encontrei uma frase de Sêneca, o velho filósofo romano, que viveu quase dois mil anos antes do PIX, (que não é do Bolsonaro e nunca será do Trump) do WhatsApp e da ansiedade em 5G, escreveu: “Os seres humanos erram ao viver no futuro como se o tempo fosse garantido.”
Pensei que ele estivesse falando de mim.
Tenho uma estranha mania de guardar as melhores camisas para uma ocasião especial. O perfume bom também. O vinho, então, esse parece estar sempre esperando um decreto celestial que reconheça oficialmente a existência de um “dia importante”.
Enquanto isso, a camisa envelhece no armário, o perfume evapora lentamente dentro do vidro e o vinho corre o risco de descobrir que rolha também morre.
Curioso como tratamos o tempo. Se alguém nos empresta dinheiro, fazemos contas. Se nos empresta um livro, prometemos devolver. Mas, quando acordamos pela manhã e recebemos mais vinte e quatro horas de vida, agimos como se fosse apenas a primeira parcela de uma dívida infinita.
Planejar é necessário. Sonhar também. O problema começa quando passamos a morar no futuro e usamos o presente apenas como sala de espera.
Conheço gente que ensaia tanto a felicidade que nunca estreia.
Economiza abraços para depois. Guarda palavras de carinho para uma oportunidade melhor. Adia o pedido de desculpas porque “ainda há tempo”. E há mesmo… até o dia em que não há mais.
O futuro é um lugar curioso. Nunca recebemos correspondência de lá. Todas as cartas chegam escritas no presente.
Talvez seja essa a maior ironia da existência: o único tempo que realmente possuímos é justamente aquele que insistimos em desperdiçar imaginando os outros.
Descobri que Sêneca tinha razão. Não porque soubesse o dia de amanhã, mas porque compreendia o peso do hoje.
Desde então, tenho tentado fazer pequenas rebeldias contra o futuro. Uso a camisa boa numa terça-feira qualquer. Abro o perfume sem motivo. Telefono para um velho amigo antes que a saudade precise aprender a conviver com o arrependimento.
E, de vez em quando, sento na varanda apenas para assistir ao fim da tarde. Sem produtividade. Sem metas. Sem planejamento estratégico.
É um hábito perigosíssimo.
Afinal, pode acabar fazendo a gente perceber que a vida nunca ‘aconteceu’ amanhã.
Ela sempre teve o inconveniente costume de acontecer agora.
Fonte: HOJE BAHIA
