Durante décadas, a Seleção Brasileira foi sinônimo de futebol coletivo, criatividade e identidade. O talento individual sempre existiu, mas era potencializado por um conjunto harmonioso, cuidadosamente construído por treinadores que tinham autonomia para escolher as peças que melhor se encaixavam em seu modelo de jogo.
Entretanto, há alguns anos, uma pergunta passou a inquietar parte da imprensa esportiva, ex-jogadores e torcedores: as convocações da Seleção Brasileira são decididas exclusivamente por critérios técnicos?
A pergunta não é uma acusação. É uma reflexão.
Desde a passagem de Vanderlei Luxemburgo pelo comando da Seleção, no início dos anos 2000, o futebol mundial sofreu profundas transformações. O esporte tornou-se uma indústria bilionária. Direitos de transmissão, patrocinadores, fundos de investimento, empresários, marketing esportivo e contratos de imagem passaram a movimentar cifras nunca antes vistas.
Naturalmente, quanto maior o valor econômico envolvido, maior também a necessidade de transparência.
Ao longo das últimas décadas, o futebol brasileiro também atravessou momentos difíceis em sua administração. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) viu diversos de seus dirigentes envolvidos em investigações e denúncias.
Entre os episódios mais conhecidos estão as acusações que atingiram ex-presidentes da entidade, como Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero, investigados no contexto das apurações internacionais sobre corrupção no futebol. José Maria Marin chegou a ser preso na Suíça em 2015 durante a operação conduzida pelas autoridades norte-americanas, relacionada a esquemas de pagamento de propinas envolvendo direitos comerciais de competições internacionais.
Os problemas não ficaram restritos ao Brasil.
A própria FIFA viveu, em 2015, uma de suas maiores crises institucionais, quando dirigentes de diversos países foram investigados por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e pagamento de propinas. Pouco tempo depois, o então presidente Joseph Blatter também deixou o cargo após ser suspenso pela entidade.
Esses episódios deixaram uma marca profunda na credibilidade da gestão do futebol mundial.
É justamente nesse contexto que surgem questionamentos legítimos.
Hoje, muitos dos principais jogadores brasileiros possuem contratos milionários, acordos publicitários globais e enorme valor de mercado. Uma convocação para a Seleção frequentemente aumenta visibilidade, fortalece marcas pessoais e pode influenciar negociações esportivas.
Diante dessa realidade, alguns torcedores perguntam:
– Será que existe pressão comercial sobre as convocações?
Mais ainda:
– Seria possível que contratos privados previssem incentivos financeiros vinculados à presença constante na Seleção?
Não há evidências públicas de que existam cláusulas ocultas obrigando treinadores a escalar determinados atletas. Sem provas, qualquer afirmação nesse sentido seria irresponsável.
Mas perguntar não ofende.
O que se observa em campo desperta curiosidade.
Há anos, a Seleção reúne jogadores extraordinários em seus clubes, mas frequentemente apresenta enorme dificuldade para funcionar como equipe.
Talvez porque o futebol de clubes seja construído diariamente.
Cada atleta atua cercado por companheiros escolhidos para potencializar suas características. O lateral sobe porque existe cobertura. O meia recebe entre linhas porque há movimentações previamente treinadas. O atacante encontra espaços porque todo o sistema foi desenhado para favorecer aquele estilo de jogo.
Na Seleção, porém, muitas vezes parece ocorrer o contrário.
Reúnem-se estrelas esperando que reproduzam, quase automaticamente, aquilo que fazem semanalmente em seus clubes.
Mas futebol coletivo não nasce da simples soma de talentos.
Nasce da compatibilidade entre funções, características, ocupação de espaços e modelo de jogo.
Talvez por isso tenhamos assistido, ao longo dos últimos anos, a inúmeros jogadores sendo convocados para exercer funções diferentes das que desempenham em seus clubes. Laterais transformados em alas com outras responsabilidades, pontas atuando por dentro, meias deslocados, atacantes sacrificados em esquemas que pouco lembram suas equipes de origem.
A pergunta inevitável é:
O treinador escolheu realmente os jogadores que desejava para montar seu sistema tático, ou precisou adaptar um sistema para acomodar nomes previamente considerados “inevitáveis”?
Essa dúvida não é dirigida a um técnico específico.
Ela atravessa diferentes gerações de treinadores.
Também não significa que existam interferências comprovadas.
Mas, diante da dimensão econômica do futebol moderno e do histórico de problemas administrativos que marcaram importantes entidades do esporte, discutir mecanismos de governança, transparência e autonomia técnica tornou-se não apenas legítimo, mas necessário.
O torcedor brasileiro merece acreditar que a camisa mais pesada da história do futebol continua sendo vestida pelos jogadores que melhor representam um projeto coletivo, e não apenas pelos atletas de maior projeção comercial.
Talvez tudo seja apenas coincidência.
Talvez as escolhas sejam exclusivamente técnicas.
Ou talvez seja hora de ampliar o debate sobre como são construídas as seleções nacionais em um futebol cada vez mais influenciado pelo mercado.
Questionar não significa condenar.
Questionar significa defender a transparência.
E, em um esporte que move paixões e bilhões de reais, transparência jamais deveria ser vista como ameaça, mas como uma obrigação permanente.
Fonte: HOJE BAHIA
