Pelo menos aqui na Bahia, a paz anda muito mal assessorada.
Se dependesse dos noticiários televisivos, ela já teria pedido demissão há tempos, cansada de perder espaço para tragédias mais, digamos assim, fotogênicas. A guerra merece manchetes. A paz, quando muito, ganha um rodapé.
Talvez porque a paz seja extremamente tímida. Ela não chega de tanque nem montada em drones. Não faz discurso inflamado nem exige aplausos. A paz entra sem bater na porta, senta-se num canto da sala e fica observando as pessoas brigarem pela exclusividade da razão.
A tal da “razão”, aliás, é uma das maiores inimigas da paz.
Não a razão legítima, que ilumina caminhos e evita desastres. Falo daquela razão musculosa, que faz flexão de argumentos diante do espelho e passa o dia repetindo:
– Eu estou certo.
É impressionante a quantidade de guerras que cabem dentro dessas três palavras.
Outro dia encontrei a paz sentada num banco da praça da Piedade. Estava sozinha.
Pensei em me aproximar, mas hesitei. É que a gente não sabe muito bem o que dizer para a paz. Com a tristeza é fácil. Com a raiva também. Ambas são falantes, expansivas, gostam de companhia.
A paz, não. A paz aprecia silêncios.
Criei coragem e me sentei ao seu lado.
Ficamos alguns minutos olhando um casal de idosos caminhar devagar. Caminhavam tão devagar que pareciam estar ensinando o tempo a envelhecer com dignidade.
Depois vimos uma criança perseguindo uma pomba sem qualquer esperança de alcançá-la. E a pomba fingindo fugir apenas para não decepcionar a criança que gritava, feliz: você é uma águia!.
Mais adiante, um vendedor de picolés empurrava seu carrinho sob o sol. Assobiava uma melodia qualquer, dessas que ninguém conhece e que talvez nem existam fora da cabeça de quem assobia.
A paz não comentou nada, mas eu percebi que ela sorria.
Foi então que compreendi uma coisa: passamos a vida procurando a paz como quem procura um tesouro escondido atrás das montanhas, no fim das estradas, depois de resolver todos os problemas.
E talvez ela esteja justamente no contrário.
Talvez a paz seja essa pausa entre dois problemas.
Esse breve intervalo em que o mar continua formando suas ondas e alguém que amamos ainda atende o telefone do outro lado da linha.
Talvez a paz não seja ausência de tempestades. Talvez seja a capacidade de ouvir a chuva sem acreditar que o mundo está acabando…
Quando me levantei para ir embora, a paz continuou sentada no banco.
Perguntei se ela não vinha.
Ela respondeu que já estava indo.
E apontou para todos os lados ao mesmo tempo: para o casal de idosos, Para a criança que corria atrás dos pombos, para o vendedor de picolés, para um cachorro dormindo à sombra de uma árvore, para uma janela aberta de onde escapava o cheiro de moqueca.
Só então percebi que a paz não mora nos tratados assinados pelos governos nem nas promessas dos homens ditos “importantes”. A paz mora onde a vida acontece sem alarde. Mora nas pequenas gentilezas, nos perdões difíceis, nas conversas demoradas, nos abraços sem motivo e nos silêncios sem constrangimento.
Mora, sobretudo, naquele instante raro em que paramos de exigir que o mundo seja perfeito e agradecemos porque ele simplesmente existe. A paz, afinal, nunca esteve perdida. Quem vive se perdendo somos nós.
Fonte: HOJE BAHIA
