Em Tucano, sertão da Bahia, onde o chão racha desde agosto e a caatinga vira campo de espinho em dezembro, todo mundo conhecia Memeu.
Não era o nome de batismo. Era apelido. Deram porque ele era filho de Bartolomeu de França. Memeu corria como o vento. Vaqueiro novo, perna fina, chapéu de couro gasto. Diziam que nenhum bode, nenhum tatu, bicho nenhum fugia dele. E tinha um cachorro, o Apolo, que se soltasse não voltava sem caça. E tinha uma arma, uma espingarda calibre 12, velha do avô, de cano comprido, que o povo jurava que nunca errava tiro.
Mas o que prendia Memeu não era o mato. Era Dalva.
Dalva morava na casa de taipa mais bem caiada da região. Tecia renda de bilro na calçada, com uma paciência que parecia desaforo com tanto calor. Enquanto ele vivia de vento, ela vivia de espera. E se amavam daquele jeito sertanejo de amar: pouco dizer, muito fazer. Ele trazia água do barreiro, ela consertava a camisa dele, rasgada pelos espinhos inclementes.
Até que passou pela fazenda uma bela moça da cidade. Filha de um doutor de Salvador, veio tirar foto da seca. Aurora era o nome dela, mas todo mundo chamava de Alvorada, de tão clara que era. Viu Memeu correndo atrás do gado no lajedo e se encantou. Ofereceu-lhe tudo: ir pra capital, trabalhar com ela, ter vida mansa.
Memeu disse não. Disse que já tinha mulher e que a mulher dele era que nem o sertão depois da chuva: rara e definitiva.
Aurora riu amarelo, ferida. E como gente da cidade quando não tem o que quer, resolveu plantar uma dúvida.
“Você tem tanta certeza assim da sua rendeira? Você passa o dia no mato, e ela na porta de casa… quem garante que ela te espera mesmo?”
A dúvida é semente que pega no sertão mais rápido que mandacaru no inverno.
Memeu começou a chegar mais cedo da caatinga, pisando de mansinho. Começou a reparar nas visitas que Dalva recebia para comprar renda. Começou a inventar um teste.
Disse que ia para uma vaquejada de três dias em Euclides da Cunha. Mas não foi. Ficou escondido no pé de juazeiro atrás da casa, esperando ver.
Dalva passou o primeiro dia na janela. No segundo, chorou na renda. No terceiro, já de noitinha, quando o vento virou, aquele vento frio que antecede a chuva, o vento que Memeu tanto amava caçar, ela levantou.
Ela tinha ouvido os meninos dizerem: “Memeu fala com o vento no mato, chama o vento de meu amor”. Era brincadeira dos vaqueiros, porque ele, quando suava, gritava “vem, vento!” para se refrescar.
Dalva, com o coração já roído de saudade e ciúme, pensou outra coisa. Pensou que “Vento” fosse outra mulher.
Saiu descalça no mato, atrás do juazeiro, para ver com quem o marido falava.
Memeu ouviu o xaxado do mato seco. Pisada de gente. De bicho que se esconde. Instinto de caçador. Apolo latiu uma vez, estranho.
Memeu, no escuro, com medo de ser onça, com medo de ser ladrão, com medo de ser o outro que Aurora inventou na cabeça dele, ergueu a espingarda que nunca errava.
Atirou no farfalhar.
O vento parou.
Quando assuntou, era Dalva no chão, com a renda branca manchada de vermelho, ainda segurando um pano que tinha feito para ele.
“Eu só vim ver quem era o Vento”, ela disse.
E foi naquele instante que Memeu, o homem que corria com o vento, entendeu que tinha passado a vida inteira tentando agarrar o que não se agarra, e tinha acabado de perder o que sempre esteve parado, esperando por ele.
Hoje, ainda contam que em certas tardes de agosto, quando o vento rodopia a poeira no terreiro daquela casa abandonada, se ouve um assobio: “vem, vento”. Só que agora ninguém responde.
Fonte: HOJE BAHIA