Caso Master expõe direita ao desgaste e disputa por protagonismo sem Bolsonaro

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Maio de 2026 tornou-se um dos meses mais turbulentos da política brasileira, às vésperas das eleições. No início do mês, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreu duas derrotas relevantes no Senado: a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto à Lei da Dosimetria, movimentos atribuídos à articulação do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Parte dos analistas avaliava que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) despontava como favorito na corrida presidencial, enquanto o governo Lula enfrentava dificuldades para reorganizar sua articulação política.
Uma semana depois, a Polícia Federal (PF) apontou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) como destinatário central de vantagens indevidas do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O presidente do PP foi acusado de receber uma mesada de R$ 500 mil em troca de favores políticos, como a criação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que ampliava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Antes disso, Nogueira era cotado para ser vice de chapa do senador Bolsonaro.
Na semana seguinte, o próprio Flávio Bolsonaro seria implicado, após revelações do site Intercept Brasil mostrarem que o senador, em áudio, cobrou dinheiro de Vorcaro para a produção do filme “Dark horse”, com um valor acertado de R$ 134 milhões, dos quais teriam sido pagos R$ 61 milhões. O parlamentar tinha, antes, negado contato com Vorcaro e afirmado que o recurso tinha origem privada.
Porém os dois mantiveram contato de 2024 até 8 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro. A história de Flávio se complica porque o Master já despertava suspeitas no Banco Central em meados de 2025. Inclusive o fato de governos de estados terem investido dinheiro público no banco, como no caso do Rioprevidência durante a gestão de Cláudio Castro (PL-RJ), contesta a tese de que as reservas mantidas pela instituição eram “privadas”.

“Essas novas revelações colocam o holofote do caso Master onde ele sempre deveria estar, que é na direita”, afirma José Paulo Martins, professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ao comentar o caso, o cientista político aponta muitos dos elementos do filme como suspeitos, como indícios de repasse de recursos de emendas parlamentares para a produção. Conforme um levantamento do jornal Folha de S.Paulo, deputados estaduais destinaram R$ 700 mil a empresas e ONGs ligadas à produtora do filme, Go Up Entertainment.
Outra denúncia, feita pelos deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e Henrique Vieira (Psol-RJ), chega a aumentar os valores para ao menos R$ 7,7 milhões em emendas, tendo sido destinadas por parlamentares do PL, como os ex-deputados Alexandre Ramagem e Carla Zambelli e os deputados federais Marcos Pollon (MS), Bia Kicis (DF) e Mario Frias (SP) — este produtor executivo ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, como aponta o Intercept Brasil. O ministro Flávio Dino, do Supremo, abriu uma investigação sobre esse possível desvio de emendas.

“É bastante suspeita a questão do financiamento, com o dinheiro do Master e o dinheiro de emendas que estão irrigando esse filme, […] várias irregularidades em território nacional”, aponta, referindo-se à falta de registro do filme pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), às queixas de condições de trabalho pela equipe brasileira e à falta de comprovação de vistos de trabalho entre o elenco majoritariamente estrangeiro.

Ao seu ver, o episódio sobre o “Dark horse” pode ter o efeito de lembrar outros escândalos ligados ao senador, como o esquema das rachadinhas e seu vínculo com o miliciano Adriano da Nóbrega. Sobretudo o avançar do Caso Master, segundo Martins, poderia quebrar a imagem de políticos da direita que se opõem a Lula e ao petismo associando estes à corrupção — principalmente os da família Bolsonaro.
Martins ressalta que, apesar de as intenções de voto mostrarem Flávio Bolsonaro e Lula empatados, a candidatura de Flávio já era frágil desde o princípio por conta dos outros escândalos. Para ele, o áudio com Vorcaro deixou a capacidade de articulação de alianças mais fraca, abrindo a possibilidade de candidatos não quererem se relacionar com sua candidatura.
No entanto, ele ainda não vê a pré-campanha do senador como acabada.

“Eu acho muito difícil que qualquer outra candidatura de direita, seja o [Romeu] Zema [Novo-MG], seja o [Ronaldo] Caiado [PSD-GO], seja o Renan Santos [Missão-SP], tenha força suficiente para ultrapassar o Flávio Bolsonaro se ele realmente for candidato”, diz Martins.

“Então, se ele realmente for candidato, o caminho para essa candidatura de direita fica um pouco interrompido. Mesmo que ele tenha um desgaste, que ele saia lá dos 35% que ele tem agora e caia para uns 25%, os outros candidatos da direita não vão ter como chegar.” O professor pontua, por outro lado, que isso pode mudar caso mais gravações ou documentos ligados ao senador sejam divulgados, dizendo que assim poderia haver uma desistência ou apoio a outro nome.

“Aí, sim, pode abrir o espaço, mas enquanto a família Bolsonaro estiver na disputa, esse espaço não será aberto.”

Complementando, Marcus Ianoni, professor do Departamento de Ciência Política da UFF, vê que o escândalo pode acirrar uma disputa pelo protagonismo dentro da direita, ressaltando que isso se deve pelo crescimento que essa ala teve nos últimos anos.

“Isso tende a fomentar disputas internas entre as lideranças, que pretendem se colocar como os melhores representantes desse espectro político perante o eleitorado e perante as elites políticas desse campo”, explica. “Sobretudo pelo fato de que esse escândalo, ao que tudo indica, não foi pouca coisa, pelo contrário, é algo muito sério.”

Enquanto figuras como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema passaram a criticar publicamente Flávio Bolsonaro após a divulgação do áudio, outras lideranças adotaram um tom mais cauteloso e defenderam a preservação da unidade da direita diante do desgaste político. Foi o caso do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Para Ianoni, essa postura reflete um cálculo político de médio e longo prazos. “Tanto Caiado como Tarcísio foram cautelosos. Eles querem derrotar as candidaturas de Lula e [Fernando] Haddad [ex-ministro da Fazenda], precisam manter a direita unida, o que passa por manterem-se próximos dos líderes e eleitores bolsonaristas.”

O cientista político observa ainda que esse impulso por unidade tende a permanecer como elemento estrutural da política brasileira. “Essa vontade de união da direita é, até o momento, algo que veio para ficar, devendo estar presente tanto na eleição atual quanto nas próximas, uma vez que o centro se enfraqueceu e a grande disputa é entre as forças de direita e as forças mais à esquerda”, conclui Ianoni.

Ainda assim, ele avalia que o campo da direita está longe de ser homogêneo e vive disputas simultâneas por liderança e identidade política. Segundo o professor, há divisões tanto na direita tradicional quanto na extrema-direita, e o apoio à família Bolsonaro não é consensual dentro dessa vertente. “Em 2024, a família Bolsonaro não apoiou Pablo Marçal, e sim Ricardo Nunes, na eleição municipal de São Paulo. Há eleitores de extrema-direita que, entre outros motivos, por não serem evangélicos, se identificaram mais com as posições de Pablo Marçal que as de Bolsonaro.”
Na sua avaliação, a postura de Caiado ilustra o esforço de algumas lideranças para construir uma identidade própria, capaz de dialogar com o eleitorado conservador sem necessariamente se subordinar ao protagonismo político da família Bolsonaro — contudo ainda apoiando projetos similares de Flávio, como a anistia aos condenados pela trama golpista.

“Veja que Caiado fala em nome de uma suposta centro-direita, na tentativa de não se confundir com o bolsonarismo.”

Martins, por fim, levanta dois pontos positivos para Flávio, apesar do escândalo. “Uma eleição presidencial é, de fato, uma coisa bastante dinâmica e muito contextual. Está perto, mas não perto o suficiente ainda para todo esse tipo de escândalo ter um impacto lá no resultado de outubro”, explica. Contudo, ressalta que as investigações ainda estão em curso.
O outro ponto é a relatoria do Caso Master, que está sob responsabilidade, no Supremo Tribunal Federal, do magistrado André Mendonça, escolhido pelo ex-presidente Bolsonaro. Apesar disso, essa condição é uma lâmina de dois gumes: enquanto há uma expectativa de que Mendonça seja leal ao bolsonarismo, isso não impediu o ministro de autorizar operações contra aliados do senador. Inclusive, como aponta, será mais difícil manter a retórica de que estão sendo “perseguidos” pelo STF.

Fonte: HOJE BAHIA

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