“Então, se ele realmente for candidato, o caminho para essa candidatura de direita fica um pouco interrompido. Mesmo que ele tenha um desgaste, que ele saia lá dos 35% que ele tem agora e caia para uns 25%, os outros candidatos da direita não vão ter como chegar.” O professor pontua, por outro lado, que isso pode mudar caso mais gravações ou documentos ligados ao senador sejam divulgados, dizendo que assim poderia haver uma desistência ou apoio a outro nome.
“Aí, sim, pode abrir o espaço, mas enquanto a família Bolsonaro estiver na disputa, esse espaço não será aberto.”
Complementando, Marcus Ianoni, professor do Departamento de Ciência Política da UFF, vê que o escândalo pode acirrar uma disputa pelo protagonismo dentro da direita, ressaltando que isso se deve pelo crescimento que essa ala teve nos últimos anos.
“Isso tende a fomentar disputas internas entre as lideranças, que pretendem se colocar como os melhores representantes desse espectro político perante o eleitorado e perante as elites políticas desse campo”, explica. “Sobretudo pelo fato de que esse escândalo, ao que tudo indica, não foi pouca coisa, pelo contrário, é algo muito sério.”
Enquanto figuras como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema passaram a criticar publicamente Flávio Bolsonaro após a divulgação do áudio, outras lideranças adotaram um tom mais cauteloso e defenderam a preservação da unidade da direita diante do desgaste político. Foi o caso do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Para Ianoni, essa postura reflete um cálculo político de médio e longo prazos. “Tanto Caiado como Tarcísio foram cautelosos. Eles querem derrotar as candidaturas de Lula e [Fernando] Haddad [ex-ministro da Fazenda], precisam manter a direita unida, o que passa por manterem-se próximos dos líderes e eleitores bolsonaristas.”
O cientista político observa ainda que esse impulso por unidade tende a permanecer como elemento estrutural da política brasileira. “Essa vontade de união da direita é, até o momento, algo que veio para ficar, devendo estar presente tanto na eleição atual quanto nas próximas, uma vez que o centro se enfraqueceu e a grande disputa é entre as forças de direita e as forças mais à esquerda”, conclui Ianoni.
Ainda assim, ele avalia que o campo da direita está longe de ser homogêneo e vive disputas simultâneas por liderança e identidade política. Segundo o professor, há divisões tanto na direita tradicional quanto na extrema-direita, e o apoio à família Bolsonaro não é consensual dentro dessa vertente. “Em 2024, a família Bolsonaro não apoiou Pablo Marçal, e sim Ricardo Nunes, na eleição municipal de São Paulo. Há eleitores de extrema-direita que, entre outros motivos, por não serem evangélicos, se identificaram mais com as posições de Pablo Marçal que as de Bolsonaro.”
Na sua avaliação, a postura de Caiado ilustra o esforço de algumas lideranças para construir uma identidade própria, capaz de dialogar com o eleitorado conservador sem necessariamente se subordinar ao protagonismo político da família Bolsonaro — contudo ainda apoiando projetos similares de Flávio, como a anistia aos condenados pela trama golpista.
“Veja que Caiado fala em nome de uma suposta centro-direita, na tentativa de não se confundir com o bolsonarismo.”
Martins, por fim, levanta dois pontos positivos para Flávio, apesar do escândalo. “Uma eleição presidencial é, de fato, uma coisa bastante dinâmica e muito contextual. Está perto, mas não perto o suficiente ainda para todo esse tipo de escândalo ter um impacto lá no resultado de outubro”, explica. Contudo, ressalta que as investigações ainda estão em curso.
O outro ponto é a relatoria do Caso Master, que está sob responsabilidade, no Supremo Tribunal Federal, do magistrado André Mendonça, escolhido pelo ex-presidente Bolsonaro. Apesar disso, essa condição é uma lâmina de dois gumes: enquanto há uma expectativa de que Mendonça seja leal ao bolsonarismo, isso não impediu o ministro de autorizar operações contra aliados do senador. Inclusive, como aponta, será mais difícil manter a retórica de que estão sendo “perseguidos” pelo STF.