Havia um homem na cidade que insistia em plantar flores no canteiro de uma avenida movimentada. Seu nome era Apolinário.
Ele não era jardineiro da prefeitura, nem ambientalista de ONG. Era apenas um homem magro. Trazia sempre uma enxada pequena, um saco de terra preta e uma esperança que já deveria estar vencida pelo prazo de validade.
Plantava flores entre buzinas e roncos de motores.
Os motoristas o observavam com a piedade que reservamos aos loucos e aos poetas – categorias perigosamente parecidas. Alguns riam. Outros perguntavam por que desperdiçava tempo ali, onde ninguém andaria devagar o suficiente para admirar pétalas.
Ele respondia com um sorriso: “porque alguém precisa acreditar antes da flor nascer”.
Na verdade, Apolinário travava guerras invisíveis desde que sua filha partiu para São Paulo – destino inevitável para quem desistiu.
Lutava batalhas imaginadas contra o concreto, contra a pressa, contra os homens que desaprenderam a olhar para o céu. Enquanto o mundo negociava princípios, ele ainda carregava convicções no bolso, junto às sementes. Parecia incapaz de vender a alma, mesmo quando a vida oferecia descontos generosos para quem desistisse de sonhar.
E desistir era tão mais fácil…
Fácil era aceitar que o mundo funciona na base da brutalidade elegante. Fácil era rir dos idealistas, chamar de ingenuidade qualquer gesto de bondade e transformar esperança em piada de mesa de bar.
Difícil era continuar humano. Apolinário continuava.
Toda manhã aparecia ali antes do sol encandecer o asfalto. Regava suas pequenas rebeliões coloridas enquanto os ônibus passavam cuspindo fumaça e impaciência. Havia dias em que encontrava as flores arrancadas. Em outros, esmagadas por pneus. Ainda assim, voltava no dia seguinte com novas mudas.
Como quem reza.
Talvez porque certos homens descubram cedo que viver não é vencer o mundo – é não permitir que o mundo vença o que existe de melhor dentro deles.
Uma tarde, viu uma menina parar diante do canteiro. Devia ter uns sete anos. Ficou olhando uma flor amarela que havia sobrevivido heroicamente entre rachaduras e poeira de asfalto. Depois sorriu daquele jeito que só as crianças conseguem: inteiro, sem cálculo, sem defesa.
Apolinário percebeu.
E naquele instante, pareceu descansar de todas as guerras.
Porque era disso que se tratava. Não das flores. Nem da avenida. Nem da cidade.
Tratava-se da teimosa necessidade de acreditar que ainda vale a pena lutar pelo impossível, mesmo quando tudo aconselha a rendição.
Há pessoas que enriquecem. Outras acumulam poder. Algumas conseguem fama.
Mas existem aquelas raríssimas criaturas que passam pela vida tentando fazer brotar flores em terrenos improváveis.
Essas, sim, modificam o mundo.
Ainda que ninguém perceba.
Ainda que sangrem em silêncio.
Ainda que terminem cansadas, derrotadas, incompreendidas.
Porque no fim – e talvez essa seja a única verdade importante – o impossível não é o sonho.
Impossível é viver sem ele.
Fonte: HOJE BAHIA