A montanha e o oceano

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Recebí do meu amigo Rogério Câncio, hoje ao amanhecer, uma mensagem de WhatsApp com um antigo provérbio japonês que me fez abandonar o café antes mesmo do segundo gole:

“O que você deve ao seu pai é mais alto que uma montanha; o que deve à sua mãe é mais profundo que o oceano.”

Deixei a xícara por alguns instantes. Não porque eu tivesse entendido a frase em toda sua profundidade (ou altura). Foi justamente porque percebi que jamais a entenderia por completo.

Há frases que cabem na cabeça e até no coração. Outras, só cabem na vida.

Quando somos crianças, acreditamos que nossos pais existem para resolver problemas. Pai conserta bicicleta, troca lâmpada, espanta cachorro bravo e parece conhecer todos os caminhos. Mãe encontra o objeto perdido, adivinha febre antes do termômetro, percebe tristeza escondida atrás de um “está tudo bem” e, por algum mistério que a ciência ainda não explicou, sabe quando estamos mentindo apenas pelo jeito de fechar a porta.

Na infância, tudo isso nos parece natural. Como o nascer do sol.

Só mais tarde descobrimos que não era natural. Era amor trabalhando em silêncio.

Meu pai talvez nunca tenha me dito todas as palavras que hoje considero importantes. Pertencia a uma geração em que os homens aprendiam mais a carregar o mundo nas costas do que a falar sobre sentimentos. Mas havia um jeito peculiar de demonstrar afeto: um conselho dado sem olhar diretamente, uma preocupação disfarçada em bronca, um “leve um casaco” pronunciado como quem apenas comentava o tempo e um tapa carinhoso (às vezes doloroso) com o dorso da mão.

Naquele tempo eu não compreendia. Hoje percebo que alguns homens diziam “eu te amo” usando o idioma da responsabilidade.

Já minha mãe falava outra língua. A língua do cuidado.

Ela sabia, sem precisar consultar relógios, a hora da fome, da gripe, da decepção e até da saudade que eu ainda nem tinha sentido. Fazia comida suficiente para quem chegasse sem avisar, porque toda mãe acredita que uma mesa nunca deve terminar exatamente na última cadeira.

O curioso é que passamos metade da vida querendo ser independentes dos pais. Depois passamos a outra metade descobrindo quantas partes deles moram dentro de nós.

Um dia você se surpreende repetindo uma frase do seu pai. No outro, passa o dia lembrando da cor dos olhos da mãe. Do sorriso doce…

E então entende que a herança mais valiosa nunca esteve em cartórios.

Ela estava nos gestos.

O provérbio japonês fala de uma montanha e de um oceano. Achei bonito, mas talvez incompleto. Porque montanhas podem ser escaladas. Oceanos podem ser atravessados.

O amor dos pais, esse não.

Não existe corda que alcance seu topo.

Não existe barco que encontre seu fundo.

Talvez por isso a vida tenha inventado os filhos. Não para pagar essa dívida impossível, mas para fazê-la continuar circulando. Cada gesto de carinho que oferecemos a quem vem depois leva, escondido, um pouco das mãos que um dia nos sustentaram.

Penso nisso sempre que encontro alguém dizendo que venceu sozinho.

Sozinho?

Ninguém vence sozinho.

Há sempre uma mão invisível segurando nossa primeira bicicleta, outra limpando nossos joelhos esfolados, outra apagando a luz do quarto quando fingíamos dormir.

Quando essas mãos desaparecem do mundo, descobrimos um detalhe que só o tempo ensina: elas continuam trabalhando dentro da gente.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da gratidão.

Não devolver.

Mas prosseguir.

Porque a montanha permanece de pé.

E o oceano continua profundo.

Dentro de nós.



Fonte: HOJE BAHIA

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