Um estudo brasileiro utilizou técnicas de sequenciamento de DNA para identificar toneladas de pepinos-do-mar que haviam sido apreendidos pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo. A pesquisa acende um alerta para a queda populacional de espécies e o desequilíbrio ecológico causados pelo tráfico.
Os animais são alvos frequentes de comércio ilegal no Brasil especialmente para a China, já que são considerados uma iguaria milenar na culinária asiática e na medicina tradicional do país.
A pesquisa, conduzida por pesquisadores do Lagenpe (Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes) da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e apoiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi publicada na revista Scientific Reports.
A equipe de demonstrou que os animais encontrados em malas pertencem às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus. Eles são, comprovadamente, oriundos do sudeste brasileiro, configurando um crime ambiental e podendo indicar uma futura crise para a biodiversidade costeira do país.
O risco para a espécie
Atualmente, segundo a Unesp, existem 1.250 espécies de pepinos-do-mar espalhadas pelo globo, com 40 delas em território brasileiro.
Os animais indicados no estudo estão atualmente listados como de “Menor Preocupação” pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), ainda assim, isso não significa que sua exploração não apresente riscos ao meio ambiente.
Segundo Fabio Porto-Foresti, biólogo e professor no Departamento de Ciências Biológicas da FC (Faculdade de Ciências) da Unesp, um dos riscos envolvendo o comércio ilegal dessa espécie é que a exploração intensa reduza drasticamente populações e espécies de pepino-do-mar na região, cenário que pode ter acontecido na China.
“O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma que é transportado, permite que seja levada uma grande quantidade nas bagagens. Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie”
Outro docente da FC, Ricardo Utsunomia, reforçou que a retirada dos pepinos-do-mar de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um alto desequilíbrio ecológico, já que eles ficam no fundo do oceano, onde extraem e ingerem matéria orgânica.
O processo de pesquisa
O estudo envolvendo os pepinos-do-mar é uma parceria entre o Lagenpe e o Ibama que teve início em 2015, quando um mestrando do laboratório decidiu pesquisar as redes de comércio ilegal no Aeroporto Internacional de Guarulhos envolvendo os peixes-de-bico.
Os pesquisadores da Unesp realizavam a análise molecular para identificar a espécie após as apreensões de materiais realizadas pelo Ibama. Os espécimes secos de pepino-do-mar usados foram apreendidos em 2023.
Geralmente, os animais apreendidos estão descaracterizados, cortados e secos, dificultando a identificação com base na aparência. De acordo com Fabio Porto-Foresti, o marcador molecular permite saber o que está sendo comercializado. O que não é visto na aparência, então, é visto do ponto de vista genético.
Os materiais apreendidos ficavam escondidos em caixas e malas, cada uma contendo aproximadamente 500 animais secos. Dessas, os pesquisadores selecionaram, aleatoriamente, 40 espécimes para as análises moleculares. Foi identificado que 18 pertenciam à espécie Holothuria grisea e 22 à Isostichopus badionotus.
O objetivo maior desse projeto é pensar nesse comércio que vem acontecendo e que não conseguimos identificar a espécie do ponto de vista morfológico. Com o marcador genético, vai ser possível ver exatamente qual espécie está sendo comercializada, seja para pepino-do-mar, peixe, camarão ou outros grupos. Essa é a grande questão.
*Sob supervisão de Rafael Saldanha
Fonte: CNN Brasil