Adoro a sexta-feira em Mar Grande, sede do município de Vera Cruz, ilha de Itaparica, Bahia. Coloco assim, detalhadamente, a localização para evitar que o impoluto leitor se dê ao trabalho de pesquisar para descobrir ‘onde fica esse lugar’.
Mas, como dizia, adoro a sexta-feira aqui. Desde a manhãzinha o galo do vizinho aqui de trás, Roberto Carlos, canta mais afinado, as pessoas estão mais coloridas, (me refiro às pessoas não às roupas que vestem, já que sexta é dia de vestir branco em homenagem a Oxalá) e o taboqueiro não aparece.
Não sabem o que é taboqueiro? Eu explico: é um vendedor ambulante, típico da Bahia e de Pernambuco, conhecido por tocar um triângulo (instrumento musical) para anunciar a venda de um biscoito (taboca) em formato cilíndrico. Aliás, desde criança sou fissurado em taboca e não consigo resistir a comprar uma porrada da iguaria nos outros dias da semana. Porque o taboqueiro não aparece na sexta? Confesso que não sei e não me atrevi a perguntar para preservar a ‘dieta’ da iguaria nesse dia.
Mas desconfio – e sexta-feira é dia de suspeitar de coisas leves – que o taboqueiro tenha algum acordo silencioso com a minha consciência. Uma espécie de pacto informal, firmado sem assinatura, mas com validade eterna: “às sextas, a gente te poupa”.
E eu aceito. Sem discutir cláusulas.
Porque sexta-feira em Mar Grande não é dia de excesso, é dia de contemplação. Até o vento parece soprar com mais educação, como se pedisse licença para bagunçar os cabelos alheios. O mar, então, esse velho exibido, resolve caprichar: fica mais azul, mais largo, mais gostoso, mais convincente – como se estivesse tentando vender a própria imagem para um turista imaginário.
As pessoas também mudam. Não sei explicar exatamente como, mas mudam. Caminham mais devagar, como quem já ensaia o descanso do fim de semana, mesmo que o sábado ainda esteja em fase de negociação com o relógio. Há um acordo coletivo, silencioso, de que a pressa pode esperar até segunda.
Na venda da esquina, seu Zé – que durante a semana tem o humor de um fiscal de imposto em dia de balanço – sorri. Não é um sorriso largo, desses que assustam, mas um discreto levantamento de canto de boca, suficiente para causar estranheza nos clientes mais antigos. Ninguém comenta. Respeitamos o fenômeno.
E tem também o som. Sexta-feira tem uma trilha sonora própria. Não chega a ser um carnaval, mas já ensaia. Um rádio distante toca um samba antigo, minha vizinha, Taís, bate panela com mais ritmo do que necessidade, e até o cachorro da rua de cima late em tom menos acusatório, quase como se estivesse cantando junto.
É nesse cenário que eu me permito pequenos luxos: sentar sem culpa, olhar o movimento sem compromisso, e filosofar coisas absolutamente inúteis, como o motivo pelo qual o taboqueiro some justo no dia em que eu mais estou disposto a não resistir.
Talvez ele saiba. Talvez todos saibam.
Talvez sexta-feira em Mar Grande seja isso: um dia em que até as tentações tiram folga – não por falta de vontade, mas por respeito.
Ou, quem sabe, por estratégia. Afinal, sábado vem aí…
Fonte: HOJE BAHIA
