Esta crônica começou no bar de Bahia, um boteco localizado na rua do Canal, no Rio Vermelho. É um bar desses que não precisa de placa porque todo mundo sabe onde fica. Meu amigo Roberto bebia uma cerveja numa mesa na calçada. Bebia devagar, olhando para a rua como quem esperava alguém.
– Esperando quem? – perguntei, já sentando.
– Meu filho.
Olhei para os lados.
– Qual filho? – Indaguei espantado, porque Roberto não tinha filho.
Roberto sorriu.
– O que não é meu.
Confesso que não entendi.
– Como assim, Roberto?
Ele deu mais um gole na cerveja ainda gelada e apontou para a rua.
– O pai dele é outro.
Foi assim, com uma simplicidade quase desconcertante, que Roberto me contou a história entre goles de cerveja e tira-gosto de amendoim torrado.
Quando conheceu Ana, ela já tinha um menino de quatro anos. O pai da criança havia desaparecido pouco depois do nascimento. Não morreu. O que, em determinadas circunstâncias, pode ser ainda mais doloroso. Simplesmente desapareceu.
Não telefonava. Não visitava. Não perguntava se o menino estava doente, se havia passado de ano, se precisava de um tênis novo ou se tinha medo de dormir no escuro.
Roberto, porém, ficou.
No começo, o menino o chamava pelo nome.
– Roberto.
Depois, quando aprendeu a pronunciar as palavras com a intimidade inerente às crianças, passou a chamá-lo de Beto.
Até que, um dia, sem cerimônia, chamou:
– Pai!
Roberto parou.
– Como é?
O menino repetiu:
– Pai.
Roberto não corrigiu. Talvez porque algumas palavras não devam ser discutidas.
Contou-me que naquele dia foi ao banheiro, fechou a porta e chorou.
– Homem também chora, viu?
– Sei. Já dizia o poeta Gonzaguinha…
– Mas não espalha.
Não espalhei.
O menino cresceu.
Roberto acompanhou a primeira ida à escola, a primeira queda de bicicleta, a primeira ida à Fonte Nova, a primeira paixão, a primeira recuperação em matemática e a primeira vez que o rapaz chegou em casa depois da meia-noite.
Essa última, segundo ele, foi a mais difícil.
– Eu estava quase arrancando a porta do apartamento.
– E ele?
– Entrou quietinho.
– E você?
– Fiz um breve discurso.
– De pai?
– De pai.
Roberto nunca teve dúvida de que não era o pai biológico. Mas também nunca teve dúvida de que era pai.
Talvez essa seja uma diferença que a vida ainda não conseguiu ensinar direito às pessoas. Confundimos paternidade com biologia. Achamos que pai é quem transmite o sobrenome, os genes, a cor dos olhos, o formato do nariz. Esquecemos que um filho também herda aquilo que não aparece em exame nenhum.
Herda gestos.
Herda palavras.
Herda silêncios.
Herda exemplos.
Herda a coragem que viu no homem que o criou.
Herda até aquelas broncas que, na infância, parecem injustiças e, muitos anos depois, descobrimos que eram apenas amor mal disfarçado.
– E o pai verdadeiro dele? – perguntei.
Roberto ficou alguns segundos em silêncio.
– Ele apareceu.
– E aí?
– Quis conhecer o filho.
– E seu filho?
Roberto sorriu.
– Meu filho foi conhecê-lo.
Não corrigi novamente. A palavra “meu” já tinha encontrado seu lugar.
Perguntei se sentia raiva daquele homem.
– Não.
– Nunca?
– Já senti.
– E hoje?
– Hoje eu sinto pena.
– Por quê?
Roberto olhou para a garrafa vazia.
– Porque ele perdeu tudo.
Foi aí que percebi que Roberto não estava falando de dinheiro. Estava falando de uma vida.
O homem que colocou aquele menino no mundo perdeu todas as pequenas coisas que fazem a paternidade valer a pena.
Perdeu o abraço depois de uma vitória do Bahia.
Perdeu o medo da febre na madrugada.
Perdeu a primeira palavra.
Perdeu o primeiro gol no campinho de barro da rua.
Perdeu a primeira namorada.
Perdeu as brigas.
Perdeu os pedidos de dinheiro.
Perdeu os aniversários.
Perdeu até a oportunidade de ouvir:
– Pai, você estava certo.
Embora, pensando bem, talvez essa última seja uma das maiores recompensas da paternidade.
Roberto me disse que, quando o rapaz se casou, foi ele quem entrou na igreja ao lado dele.
– E o pai biológico?
– Estava lá.
– E você?
– Também.
– Ficou com ciúme?
Ele riu.
– Homem que ama não compete com o passado.
Depois ficou sério.
– Eu só queria que ele fosse feliz.
Naquele instante, olhando aquele homem simples sentado diante de mim, pensei em José de Nazaré.
Não sei se José alguma vez teve ciúme. Não sei se sofreu. Não sei quantas noites passou acordado pensando naquele menino que não havia gerado.
Sei apenas que poderia ter ido embora.
Mas ficou. E talvez seja essa a parte mais extraordinária da história de José.
Ele não era o pai biológico de Jesus. Era, porém, o homem que aceitou ser pai.
Há homens assim por toda parte. Homens que encontram crianças abandonadas pela irresponsabilidade de outros homens e, sem fazer discursos, assumem a tarefa de amá-las.
Não aparecem nos livros de história.
Não recebem medalhas.
Não ganham estátuas.
Às vezes nem sequer recebem o reconhecimento dos filhos, porque criança costuma demorar a compreender a dimensão do amor que recebeu.
Mas eles ficam. E talvez a paternidade seja exatamente isso: ficar.
Ficar quando é difícil.
Ficar quando ninguém agradece.
Ficar quando o filho diz que odeia você.
Ficar quando ele cresce e acha que já não precisa de você.
Ficar quando você descobre que criou um homem e não mais uma criança.
Ficar sem cobrar recibo.
Sem exigir gratidão.
Sem perguntar se tem direito.
Roberto terminou a cerveja e se levantou.
– Acho que meu filho chegou.
Olhei para a rua.
Um homem de uns trinta anos vinha caminhando em nossa direção.
Abraçou Roberto.
– Tudo bem, pai?
Roberto sorriu.
– Tudo.
Fiquei olhando os dois se afastarem e pensei que talvez exista uma injustiça escondida na expressão “pai de verdade”.
Porque, se pai de verdade é aquele que gera, Roberto não era.
Mas, se pai de verdade é aquele que fica, protege, educa, aconselha, perdoa e ama, então Roberto era pai até demais.
Talvez o maior ensinamento de José de Nazaré seja justamente esse.
Que há homens que não colocam um filho no mundo.
Colocam-se no mundo de um filho.
E isso, talvez, seja uma forma ainda mais profunda de gerar.
Roberto desapareceu na esquina.
Eu fiquei pensando que, se um dia alguém lhe perguntasse quantos filhos tinha, talvez ele pudesse responder:
– Um.
E se perguntassem:
– Mas ele é seu filho de verdade?
Roberto provavelmente daria aquele sorriso de quem já entendeu coisas que a vida levou anos para ensinar.
E responderia:
– É.
Depois acrescentaria, baixinho:
– Só não saiu de mim. O que saiu de mim foi a coragem de ficar.
Fonte: HOJE BAHIA