Promoção de felicidade – HOJE BAHIA

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Outro dia passei em frente a uma loja que anunciava, em letras garrafais:

“Compre agora e seja feliz”.

Parei diante da vitrine. Não porque precisasse de alguma coisa, mas porque fiquei curioso. Nunca imaginei que a felicidade tivesse etiqueta de preço, pudesse ser parcelada em dez vezes sem juros e ainda viesse com garantia estendida.

Enquanto observava o desfile de consumidores, tive a impressão de que ninguém entrava para comprar um produto. Entravam para adquirir uma promessa.

Um rapaz saiu carregando uma televisão tão grande que parecia ter comprado uma janela para o mundo das fantasias. Uma senhora abraçava três sacolas como quem leva para casa um troféu. Um menino insistia por um tênis novo, embora o antigo ainda nem tivesse perdido o cheiro de fábrica.

Todos saíam sorrindo.

Mas sei que o sorriso tinha prazo de validade.

A propaganda conhece esse segredo melhor do que nós. Ela não vende sapatos; vende sucesso. Não vende perfume; vende sedução. Não vende celular; vende pertencimento. Faz-nos acreditar que o vazio da alma pode ser preenchido com o carrinho de compras.

E o mais curioso é que o vazio é um péssimo cliente. Nunca se dá por satisfeito.

A casa ‘cresce’ de móveis, o guarda-roupa ‘engorda’ de roupas, a garagem ‘resplandece’ de carro, mas o coração continua reclamando de espaço.

Vivemos uma época estranha. As pessoas acumulam objetos enquanto perdem tempo. Compram relógios caríssimos, mas nunca encontram uma hora para conversar com os filhos. Investem em colchões sofisticados e continuam sem dormir em paz. Trocam de telefone todos os anos, porém esquecem de ligar para a mãe.

Há quem possua uma sala cheia de coisas e uma vida cheia de ausências.

Não sou inimigo do comércio. Comprar faz parte da vida. O problema começa quando deixamos de possuir as coisas e passamos a ser possuídos por elas.

O consumismo é um mágico habilidoso. Faz desaparecer o dinheiro, multiplica as prestações e cria a ilusão de que a próxima compra resolverá a inquietação da anterior. Quando percebemos o truque, já estamos esperando a próxima black friday.

Talvez por isso as lembranças mais felizes raramente venham de um shopping. Elas costumam nascer numa mesa de cozinha, numa conversa demorada, numa viagem simples, numa gargalhada inesperada, num abraço sincero ou numa tarde qualquer em que o tempo resolveu caminhar mais devagar.

Essas experiências não cabem em sacolas.

Nem precisam de código de barras.

Ao deixar a loja, olhei novamente para o cartaz da promoção. Sorri sozinho. Talvez estivesse incompleto. Acho que faltava uma linha escrita em letras bem pequenas:

“A felicidade anunciada não está incluída no preço.”



Fonte: HOJE BAHIA

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