O processo nosso de cada dia

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Daqui do quarto onde cometo essas mal traçadas linhas, tenho bela vista para uma área verde, por onde passa um riacho. Até aqui tudo bem. Mas acho que por conta do riacho, algumas muriçocas frequentam minha tranquilidade, quase todas durante a noite, mas não Maricota. Essa “bendita” simplesmente não dorme, toca seu diapasão desafinado a ponto de me deixar, digamos assim, kafkaniano. Sinto-me acuado e a única saída que vejo, já que sou avesso ao uso de inseticidas, é me adaptar à “sinfonia” de uma nota só de forma passiva.

Acho que Kafka nunca esteve no Brasil e não conheceu Maricota. Mas, se estivesse, talvez tivesse desistido de escrever. Descobriria que a realidade faz o surrealismo parecer um funcionário público em dia de expediente.

No seu romance “O Processo”, um homem acorda acusado. Não sabe de quê, nem por quem, nem como poderá se defender. Apenas descobre que sua vida passou a pertencer a um processo invisível, interminável e perfeitamente organizado para não chegar a lugar algum.

Fiquei pensando que, no fundo, todos nós somos um pouco Josef K. A diferença é que os nossos tribunais não têm paredes. Funcionam dentro da cabeça.

Logo cedo somos acusados de não ganhar dinheiro suficiente, de não emagrecer, de envelhecer rápido demais, de trabalhar pouco, de trabalhar demais, de não visitar os amigos, de não responder às mensagens, de não ser felizes como aparentam ser aqueles casais das redes sociais, com aqueles sorrisos sempre iguais. E os ridículos “biquinhos” que fazem nas fotografias…

Somos réus permanentes de crimes que ninguém tipificou.

Existe um juiz invisível que nunca tira férias. Às vezes atende pelo nome de consciência. Outras vezes responde por comparação. Em muitos dias é apenas medo.

A sentença costuma vir antes do julgamento: “Culpado.”

Culpado por não ter sido o filho perfeito. O pai perfeito. O marido perfeito. O profissional perfeito. O cidadão perfeito. A perfeição é uma lei escrita por ninguém, mas obedecida por quase todos.

Kafka entenderia isso imediatamente.

Talvez sorrisse ao descobrir que inventamos outro tipo de processo. Nele, a burocracia mora nos aplicativos. Para provar quem somos, precisamos confirmar que não somos robôs, fotografar o rosto, digitar códigos enviados para um telefone que está sem bateria e criar uma senha com doze caracteres, uma letra maiúscula, uma minúscula, dois símbolos, três números e um sacrifício de bode na lua cheia em Caixa Pregos.

Quando finalmente conseguimos entrar no sistema, esquecemos o que íamos fazer. Mais um processo encerrado sem conclusão.

Mas há um julgamento que realmente importa. É aquele que fazemos das pessoas. Condenamos pela aparência, absolvemos pela simpatia, recorremos das opiniões alheias e executamos reputações sem ouvir testemunhas.

Nossa Justiça interior é veloz quando se trata dos outros e lentíssima quando chega a nossa vez. Talvez seja essa a maior atualidade de Kafka. Ele nunca escreveu apenas sobre tribunais. Escreveu sobre a estranha facilidade que temos de aceitar o absurdo quando ele ganha um protocolo, um carimbo ou uma explicação complicada.

No fim das contas, a vida talvez não seja o processo de Kafka. Talvez seja a tentativa diária de descobrir que nem toda acusação merece defesa e que nem toda culpa precisa ser carregada.

Há dias em que a maior absolvição possível é simplesmente fechar o processo, levantar da cadeira, tomar uma cerveja e sair para ver o mundo.

Porque existe uma liberdade que nenhum juiz consegue conceder. É aquela que a gente decide não esperar.

Quanto à Maricota? Que se dane! Vou no bar da Taís tomar uma cervejinha…



Fonte: HOJE BAHIA

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