Ele leu a manchete com o cuidado de quem ainda respeita as palavras impressas, mesmo quando elas brilham numa tela: “O Brasil está envelhecendo”.
Encostou-se na cadeira, afastou o celular (jota sei lá o que) como quem devolve um objeto estranho ao seu devido lugar e ficou pensando.
– Como assim “está envelhecendo” – murmurou, com a dignidade de quem chegou primeiro.
Aos 72 anos, ele sentiu uma leve irritação. Não com o envelhecimento em si – esse já vinha sendo tratado com resignação e uma consulta médica por mês, mas com a ideia de que o país só agora havia descoberto algo que ele vinha praticando há décadas com afinco.
Ele envelhecia com experiência. O Brasil, pelo visto, estava apenas começando.
Levantou-se devagar, não por drama, mas por logística. O joelho direito exigia negociações diplomáticas. Caminhou até a janela e olhou a rua – essa mesma rua que já fora de barro, depois de paralelepípedo, depois asfaltada, e agora cheia de buracos “tecnológicos”, onde os carros andam sozinhos, mas ainda caem nas mesmas crateras de sempre.
Pensou na própria vida como quem folheia um álbum invisível.
Ele viu o mundo mudar de forma indecente.
Viu o computador nascer como um armário barulhento que comia cartões perfurados – cada erro, um furo a mais, como se a máquina tivesse senso de humor. Depois vieram os disquetes, aqueles quadradinhos frágeis que carregavam segredos e vírus com a mesma facilidade. Mais tarde, os CDs, os pendrives, a nuvem
– Nuvem… – repetiu, olhando o céu real, desconfiado. -Essa nunca caiu aqui em casa.
Ele aprendeu a usar tudo isso. Não por entusiasmo, mas por sobrevivência. Cada tecnologia nova era uma espécie de prova de resistência: ou ele acompanhava, ou ficava para trás – como ficou o rádio de válvula, como ficaram as cartas escritas à mão, como ficaram tantas coisas que um dia foram o auge e depois viraram saudade.
Mas havia algo que não mudava: a sensação de estar sempre um passo atrasado.
Enquanto o mundo corria em fibra óptica, ele ainda pensava em megabytes como quem conta moedas.
Enquanto os jovens falavam em inteligência artificial, ele lembrava da inteligência natural – aquela que ensinava a consertar um ventilador com um pedaço de arame, solda e fé.
Voltou à cadeira. Pegou o celular novamente. A manchete ainda estava lá, impassível.
“O Brasil está envelhecendo”.
Dessa vez, ele sorriu.
Percebeu, com uma clareza quase juvenil, que talvez o problema não fosse o envelhecimento – mas a forma como se falava dele. Como se envelhecer fosse um atraso, uma falha do sistema, um erro de cálculo.
Ora, ele envelhecera vendo o mundo acelerar. E, ainda assim, estava ali.
Sabia coisas que não cabiam em aplicativos. Sabia esperar. Sabia perder. Sabia recomeçar sem precisar reiniciar.
Sabia, sobretudo, que o tempo não é um inimigo – é apenas um contador silencioso que não aceita barganha.
O Brasil pode estar envelhecendo, pensou ele. Mas ainda precisa aprender a fazê-lo com elegância e dignidade.
Levantou-se outra vez, agora com menos esforço – ou talvez com mais decisão. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e ficou olhando para dentro, como se procurasse uma resposta entre o arroz de ontem e a água gelada.
Não encontrou nada de revolucionário.
Mas também não precisava.
Porque, no fundo, ele já tinha entendido tudo:
O progresso corre.
A tecnologia muda.
O país envelhece.
Mas há coisas – como a memória, a ironia e um certo jeito de observar o mundo – que só ficam melhores com o tempo.
E isso, pensou ele, fechando a geladeira com um leve estalo filosófico… nenhuma atualização jamais vai substituir.
Fonte: HOJE BAHIA
