Naquela noite, Antônio saiu para caminhar porque permanecer em casa era mais perigoso.
A casa, quando a gente envelhece por dentro, vira território inimigo. As cadeiras parecem testemunhas, os retratos cochicham e o espelho assume um ar de juiz aposentado. Antônio, para evitar ser condenado sem defesa, vestiu a camisa menos amassada e foi para a praça do Campo Grande.
A cidade seguia viva como sempre: buzinas, risadas, gente correndo atrás de compromissos e promoções de farmácia. Todo mundo parecia saber para onde ia. Antônio não. Havia tempos em que ele caminhava apenas para não parar. Politeama, Piedade, até a praça Castro Alves.
Sentia morar dentro dele uma estranha pensão. Em um quarto vivia o homem civilizado: pagador de contas, frequentador de aniversários, defensor do bom-dia no elevador. No outro, escondia-se o bicho: feroz, cansado, desconfiado de tudo, desejoso de uivar para a lua e morder as convenções.
Esses dois moradores brigavam sem cessar.
O homem civilizado dizia:
– Controle-se.
O bicho respondia:
– Liberte-se.
O primeiro queria chá de camomila; o segundo, incendiar a sala.
Antônio sofria de condomínio interior.
Parou num bar numa transversal da avenida Sete e pediu café. Queria algo forte o bastante para acordá-lo e fraco o bastante para não matá-lo. Na mesa ao lado, jovens riam daquela gargalhada que só os jovens possuem: a gargalhada de quem ainda acredita que a vida vai obedecer.
Antônio sorriu. Não por ironia. Por ternura.
Lembrou-se de quando também acreditava que a felicidade era uma estação definitiva. Depois aprendeu que ela funciona como ônibus de bairro: passa às vezes, demora muito e nunca para exatamente onde prometeu.
Saiu do bar e continuou andando.
No meio da praça, viu um cachorro vira-lata dormindo em paz, indiferente à filosofia, às prestações e às crises existenciais. Invejoso, Antônio pensou que talvez a sabedoria estivesse ali: comer quando há comida, dormir quando há sombra e rosnar apenas quando necessário.
Sentou-se no banco.
O vento da madrugada mexeu nas árvores como quem folheia um livro antigo. Antônio então percebeu uma coisa que ninguém lhe contara: não era feito de duas partes inimigas. Era feito de muitas. O menino assustado, o homem vaidoso, o sonhador ridículo, o trabalhador honesto, o covarde prudente, o apaixonado aposentado, o rebelde atrasado.
Não havia um lobo dentro dele.
Havia uma matilha.
E talvez o sofrimento começasse justamente quando insistimos em ser um só.
Levantou-se mais leve.
Voltou para casa. O espelho continuava no mesmo lugar, mas agora parecia menos severo. Antônio encarou o próprio rosto e disse:
– Boa noite, senhores.
E todos dentro dele responderam em silêncio.
Fonte: HOJE BAHIA
