A guerra no Oriente Médio, combinada a guerra na Ucrânia e às sanções impostas à Rússia, tornou o cenário do setor de energia significativamente mais complexo nos últimos meses. É o que avalia Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, em análise sobre os desdobramentos geopolíticos e seus impactos diretos no preço dos combustíveis.
Donald Trump tem buscado formas de aliviar o aumento da inflação e a insatisfação dos consumidores americanos, em um momento em que os Estados Unidos se aproximam das eleições de meio de mandato.
O preço dos combustíveis figura como uma das principais preocupações, com dados de inflação divulgados recentemente apontando que metade da alta corresponde justamente a esse item.
Combinação de fatores pressiona preços
Segundo Marcus D’Elia, o cenário atual é resultado de uma combinação de fatores que se agravaram nas últimas semanas. “O cenário hoje no mundo é bem mais complexo do que a gente tinha há dois, três meses atrás”, afirmou.
Além das duas guerras em curso, os ataques ucranianos às refinarias russas geraram uma redução generalizada na oferta de derivados, como gasolina e diesel. As sanções aplicadas pelos Estados Unidos à Rússia também limitaram a capacidade de outros países de vender esses produtos para a Europa, aumentando a demanda pelo refino local europeu e, consequentemente, elevando os preços dos derivados em toda a bacia do Atlântico, o que afeta diretamente América do Norte, América do Sul e Europa.
Uma das medidas adotadas por Trump envolve a retirada de sanções sobre navios fantasmas da Rússia e do Irã, com o objetivo de ampliar a oferta de combustíveis. No entanto, D’Elia ressalta que essa iniciativa tem efeito limitado caso a Europa não adote medidas semelhantes.
“Você tem um impasse ali que precisa envolver a União Europeia”, explicou o especialista. Países como Índia e Turquia, que anteriormente forneciam combustível à Europa, seguem impedidos de fazê-lo por conta das sanções vigentes no bloco europeu.
Logística de transporte enfrenta desafios
A questão logística representa outro obstáculo de difícil solução no curto prazo. Para evitar zonas de conflito, embarcações têm adotado rotas alternativas, como a operação de shuttle no Golfo de Omã, em que petroleiros menores fazem trajetos curtos entre os portos e o ponto de transferência fora do Golfo Pérsico. A Arábia Saudita também utiliza seus oleodutos para escoar petróleo pelo Mar Vermelho, evitando o estreito de Bab al-Mandeb, no sul do Mar Vermelho. Contudo, essas soluções têm enfrentado ataques recentes e não representam uma normalização das operações.
D’Elia alerta ainda para o risco de escassez de embarcações disponíveis. Com rotas mais longas e navios ocupados por períodos maiores, a frota disponível de petroleiros já se mostra insuficiente.
“Você não consegue aumentar a frota de petroleiros hoje de uma maneira rápida a poder suprir esse tempo adicional que você tem em transporte hoje”, destacou.
Para o especialista, a única solução estrutural seria a regularização do fluxo pelo Golfo Pérsico e pelo Mar Vermelho, o que, enquanto os conflitos persistirem, permanece fora do alcance imediato.
Fonte: CNN Brasil