Tem um ditado, digamos assim, nojento, se levado ao pé da letra, que diz: “urubu, quando está de azar, o de baixo defeca na cabeça do de cima”. “Defeca” fui eu que botei, porque ‘caga’ é feio, mas está no original do ditado.
Pois é exatamente – no sentido figurado, claro, até mesmo porque ele não sabe voar -, o que está acontecendo com Aristides “Boca Murcha”. “Boca”, que é como o chamo porque não gosto de apelidos pejorativos, está passando um perregue fenomenal. A mulher o largou e foi morar com os pais em Maragojipe, pelo simples fato de que o “Boca” não consegue um emprego para sustentar ela e os dois filhos do casal. Verdade que ela também nunca trabalhou, a não ser nas lides domésticas de cozinhar, limpar a casa, cuidar das crianças, lavar as roupas – aí incluídas as cuecas de “Boca”, molhar as 4 plantas em 4 caqueiros de barro adquiridos em Maragojipinho e, claro, comparecer devidamente perfumada nos momentos íntimos do casal, quando ela demonstrava seus dotes artísticos fingindo ruídos e caras de êxtase no momento certo.
Como eu dizia, “Boca” foi largado pela concubina e, o pior, junto com o casal de filhos. Aí danou-se. O ‘capetinha’, Ari, tem 12 anos e, como todos (ou quase todos) os meninos de 12 anos, declarou guerra ao mundo. Vai à escola pela manhã, para não tomar porrada, senão não ia. Fica o restante do dia e uma considerável parcela da noite pendurado num cumputador PC que ganhou da madrinha – que infelizmente já faleceu – a trocar mensagens pela Internet. E quem paga a conta da Internet? Isso mesmo: “Boca”. Paga, não, fica devendo.
Maria, uma doce menininha de 9 anos não dá trabalho. Vai è escola sem reclamar, ajuda a lavar os pratos quando tem comida, faz o dever de casa apressadinha para não perder o início da primeira novela e só se levanta da poltrona após a última novela. E quem paga a conta da energia? “Boca”, claro! Paga, não, fica devendo. E já está no quarto boleto!
Sei que o leitor já está ‘com pena’, alguns até pensando em descobrir o Pix de “Boca” para enviar uns trocados. Mas não se preocupe. “Boca” vai sair dessa assim que o vice-prefeito cumprir com a palavra e conseguir colocá-lo na empresa que faz o recolhimento do lixo. “Boca” é um ótimo motorista e aguarda apenas o chamado para assumir o honroso cargo.
O que “Boca” não percebeu, já que há vários anos não dirige, é que sua carteira de motorista venceu em abril do ano passado. Tirar outra, nem pensar, custa os “olhos da cara”. E é por esse motivo que lanço aqui uma campanha que, espero, sensibilize algum político inteligente: que as carteiras de motoristas das pessoas inscritas no Bolsa Família (que é de onde “Boca” tira o “pouco com Deus” para a comida) sejam renovadas sem custo.
Talvez alguém diga que isso é assistencialismo. Pode até ser. Mas, neste caso, não estou pedindo que deem nada a Boca. Estou pedindo apenas que não lhe tirem a possibilidade de ganhar o próprio pão. Porque, se o vice-prefeito cumprir a promessa, Boca vai precisar da carteira para trabalhar. Se não cumprir, vai continuar precisando do Bolsa Família para comer. E, como a política costuma ser pródiga em promessas e econômica em cumprimentos, não custa nada prevenir.
O problema é que Boca não sabe de nada disso. Outro dia encontrei o homem sentado na calçada, olhando para o celular descarregado.
– E aí, Boca, alguma novidade?
– O vice disse que segunda-feira me chama.
Era quinta-feira.
– Segunda-feira de quando?
Ele riu.
– Sei não. Mas ele disse segunda.
Boca ainda acredita.
E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior desgraça. Porque o homem que perdeu a mulher, os filhos, o emprego, a carteira de motorista e até o crédito na venda da esquina ainda conserva uma coisa que ninguém conseguiu lhe tomar: a esperança.
Só que esperança, no Brasil, também precisa de documento. E a de Boca está com a validade vencida desde abril do ano passado.
P.S.: Se algum político estiver lendo esta crônica e resolver renovar gratuitamente a carteira de motorista de Boca, faço questão de publicar o nome do benfeitor. Se, além disso, o vice-prefeito cumprir a promessa do emprego, publico uma foto dos dois. Mas, pelo amor de Deus, que alguém avise Boca que segunda-feira pode ser qualquer dia da semana. Só não pode ser eternamente.
Fonte: HOJE BAHIA