Passei boa parte da minha já longa vida procurando Deus nos lugares errados.
Olhei para o céu esperando que alguma nuvem escrevesse Seu nome. Esperei um raio riscar o horizonte em forma de assinatura divina. Procurei milagres espetaculares, vozes vindas do infinito, um sonho revelador.
Nada.
Foi então que desconfiei que, apesar das igrejas tradicionais, pentecostais, terreiros e outras mais, talvez Deus não gostasse de fazer propaganda.
Descobri isso numa manhã qualquer de um dia normal em Maragogipe. O sol nasceu sem alarde, um sabiá insistia em desafinar na mangueira da frente, e uma menina caminhava de mãos dadas com o avô. Ela fazia perguntas. Ele respondia apenas algumas. As outras respondia com um sorriso.
Naquele instante, tive a impressão de que Deus havia acabado de passar por ali sem deixar pegadas.
Há quem diga que tudo isso é obra do acaso. É um direito que respeito. Mas, quanto mais observo a vida, mais difícil me parece acreditar que o acaso tenha aprendido a escrever poesia.
O acaso produz pedreiras. A vida produz olhos capazes de admirar estrelas.
O acaso espalha elementos. A consciência transforma esses mesmos elementos em Beethoven, em Machado de Assis, em uma mãe que passa a noite acordada ao lado do filho febril.
Nunca consegui acreditar que o amor seja apenas uma reação química. Se for, é a única química capaz de fazer alguém morrer por outro sem esperar recompensa.
Também nunca compreendi por que o ser humano sente tanta sede de infinito. Temos fome porque existe alimento. Temos sede porque existe água. Por que carregamos uma saudade de eternidade, se a eternidade é apenas uma invenção do cérebro?
Talvez porque exista.
Há quem peça uma prova de Deus.
Eu também já pedi.
Hoje percebo que talvez a pergunta esteja invertida.
Se Deus não existe, quem ensinou a beleza a comover? Quem convenceu a consciência de que a justiça vale mais do que a força? Quem plantou no peito humano essa estranha nostalgia por um lugar onde toda lágrima faça sentido?
Não, eu não tenho uma fotografia de Deus.
Também não tenho uma fotografia do amor, da esperança ou da saudade. Nem por isso duvido de que existam.
Há coisas que não cabem numa lente porque nasceram para caber apenas na alma.
Talvez Deus seja assim.
Não uma equação a ser resolvida, mas uma presença a ser percebida.
Não um objeto de laboratório, mas a própria razão de existir o laboratório, a inteligência que o construiu e a curiosidade que levou alguém a perguntar como tudo começou.
No fim das contas, continuo sem possuir uma prova irrefutável.
Tenho algo melhor.
Tenho indícios espalhados por toda parte.
O universo obedecendo a leis que ninguém votou.
A consciência acusando erros que ninguém ensinou.
O amor insistindo em sobreviver ao egoísmo.
A esperança resistindo quando toda lógica manda desistir.
E uma pergunta que nunca conseguiu envelhecer:
Se tudo isso é apenas matéria, por que a matéria sonha com a eternidade?
Talvez seja porque, no fundo, a criação sempre reconhece, mesmo em silêncio, a existência do Criador.
Talvez seja porque, no fundo, a criação sempre reconhece, mesmo em silêncio, a existência do Criador.
Fonte: HOJE BAHIA