Maternidade das Coisas – HOJE BAHIA

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Vivemos um tempo curioso: as coisas se multiplicam mais depressa que os sentimentos. Antigamente, objetos nasciam da necessidade. Hoje, parecem nascer por geração espontânea, como coelhos eletrônicos saindo das vitrines e brotando nos aplicativos de compra em doze “suaves prestações”.

Há lares em que a geladeira já não conserva alimentos – conserva imãs de lojas e a esperança de que algum espaço surja entre uma air fryer aposentada e um liquidificador de terceira geração. Os armários, por sua vez, sofrem de superlotação afetiva: camisas com etiqueta, sapatos que jamais conheceram a rua, panelas adquiridas em promoções históricas e esquecidas antes mesmo da primeira feijoada.

As coisas andam férteis. Reproduzem-se sozinhas. Um fio vira três, três carregadores geram cinco, e de cada gaveta escura nasce uma família inteira de controles remotos sem destino conhecido.

O ser humano, ao contrário, vai emagrecendo por dentro.

Troca-se a alegria de um encontro pela ansiedade de uma entrega. A conversa no portão pelo rastreamento em tempo real. O abraço pelo unboxing. Há gente que já não pergunta “como você está?”, mas “chegou a encomenda?”. E, se chega, abre-se com solenidade religiosa: rasga-se o plástico-bolha como quem rompe o véu do templo. Por alguns segundos, a vida parece completa. Depois, volta a faltar alguma coisa – e lá vamos nós comprar outra.

Inventaram até uma palavra bonita para a antiga aflição: experiência de consumo. Antigamente, experiência era ver o mar pela primeira vez, ouvir um conselho do avô, apaixonar-se sem garantia. Hoje, experiência é adquirir um relógio que conta passos de alguém parado.

E não é que as coisas sejam más. Um livro pode salvar tardes. Uma cadeira acolhe cansaços. Um fogão acende esperanças em forma de café. O problema começa quando o objeto deixa de servir e passa a mandar. Quando a casa já não abriga pessoas, mas pessoas é que servem de suporte para a casa.

Há quem trabalhe a semana inteira para pagar objetos que não usa, impressionar gente que não admira e ocupar espaços interiores que nenhuma compra alcança.

Compra-se silêncio em caixas de som, status em automóveis, juventude em cremes e amor em datas promocionais.

No fim, as coisas se tornam mães severas: exigem cuidado, limpeza, atualização, seguro, manutenção, parcelas e energia elétrica. Criam seus donos como filhos obedientes.

Enquanto isso, esquecemos de cultivar o que não cabe no carrinho: amizades, tempo livre, gentileza, memória, conversa sem pressa, o luxo de não precisar de nada por algumas horas.

Talvez a verdadeira pobreza não seja ter pouco, mas precisar sempre de mais.

E talvez a salvação comece no dia em que abrirmos um armário, virmos o excesso nos encarando em silêncio e perguntarmos, com humildade doméstica:

– Afinal, quem possui quem?



Fonte: HOJE BAHIA

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