“Ninguém passa pela vida sem deixar suas pegadas”. Eu acreditava nisso como quem acredita em frase de para-choque de caminhão: bonito, mas distante. Até o dia em que Mar Grande resolveu me ensinar, sem pedir licença.
Era fim de tarde na ilha de Itaparica. O sol, desses alaranjados preguiçosos, se espreguiçava sobre o mar como se não tivesse compromisso com a noite. Eu caminhava pela areia, sozinho – ou pelo menos era o que eu pensava.
Foi quando te vi.
Você vinha no sentido contrário, também descalça, sandálias nas mãos, também distraída, como se conversasse com o vento. Não houve tema musical, nem câmera lenta, nem dessas mentiras que o cinema gosta de contar. Houve apenas um olhar que demorou um segundo a mais do que deveria – e isso, naquele momento, foi tudo.
A gente se cruzou.
E, por algum motivo que até hoje não sei explicar, você parou.
– Bonita tarde – você disse, como quem não queria dizer nada importante.
– Bonita – respondi, sem saber que estava respondendo à minha própria vida.
Dei meia volta e caminhamos juntos sem combinar. Como duas linhas que, por capricho do destino, resolvem seguir paralelas por um trecho do caminho. Conversamos sobre coisas pequenas – o calor, o mar, a ilha – como se tivéssemos medo de assustar aquele instante com qualquer profundidade.
Mas a profundidade veio, como sempre vem.
Veio no silêncio confortável que se instalou entre uma frase e outra. Veio no jeito como nossos passos começaram a se ajustar. Veio no rastro que deixávamos na areia: duas fileiras de pegadas, ora próximas, ora se tocando, ora se afastando por distração – mas nunca completamente separadas.
Eu olhei para trás.
Lá estavam elas: nossas pegadas.
Misturadas.
Confusas.
Bonitas.
E, naquele instante, entendi algo que nenhuma frase pronta tinha conseguido me ensinar: não são apenas as nossas pegadas que ficam. São as que dividimos com alguém que realmente importa.
Você ficou na minha vida pelo tempo que a maré permite – nem mais, nem menos. A vida, com sua mania de não pedir opinião, nos levou para caminhos diferentes. Sem brigas, sem grandes despedidas. Apenas aquele tipo de silêncio que diz tudo o que não tivemos coragem de dizer.
Mas ficou o rastro…
Até hoje, quando volto a Mar Grande – e eu sempre volto – caminho pela mesma faixa de areia, quase como um ritual. Sei que a maré já apagou tudo, faz tempo. A natureza não tem apego. Mas a memória… ah, essa é teimosa.
Às vezes, fecho os olhos e consigo ver nossas pegadas outra vez, lado a lado, como se o tempo tivesse decidido, por misericórdia, fazer uma pausa só para mim.
E então entendo, com uma mistura de saudade e gratidão, que você não foi apenas alguém que passou.
Você foi alguém que ficou – não na areia, que é frágil demais para guardar histórias – mas em mim, onde a maré não alcança.
Hoje, quando ouço dizer que ninguém passa pela vida sem deixar suas pegadas, eu já não penso mais em mim.
Penso em você.
Porque, no fim das contas, algumas pessoas não deixam apenas marcas no caminho…
deixam caminho dentro da gente.
Fonte: HOJE BAHIA
