Segundo José Paulo Martins, professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), o Brasil já é uma referência em economia verde, com a maior parte da matriz energética limpa, portanto, tem credenciais para falar sobre transição energética, assunto que o mundo todo está interessado.
“A transição energética está acontecendo e o Brasil tem uma carta na manga importante nesse debate sobre diversificação da produção de energia”.
Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), avalia que o movimento em direção à transição energética é mais um passo dado por Lula de uma agenda iniciada desde o seu primeiro governo, levando a cabo o tema, caro ao Sul Global e que tem na China um expoente, uma vez que Pequim avançou na utilização de energia proveniente da geração eólica e solar.
Por outro lado, a crítica do presidente brasileiro ao protecionismo europeu é ecoada sobretudo por pressão de agricultores de países do bloco que dependem de subsídios e impõem resistência ao acordo entre Mercosul e UE.
As ponderações de Lula, diante do cenário, podem levar o debate para um outro nível, em especial ao colocar os biocombustíveis na ordem das conversas, não só alimentos, diz o analista. “A produção de energia também depende da produção agrícola, então isso pode levar a um novo patamar”.
A professora da UNIRIO, por sua vez, ressalta o protecionismo europeu no âmbito comercial, com o intuito de proteger “a circulação de seus próprios recursos”. E, apesar do discurso do presidente do Brasil sobre os biocombustíveis, ela chama a atenção para o modo de produção interna do produto, que depende de investimentos do agronegócio, dado o seu modo de produção na monocultura. Na esteira da história, esse é um processo “de grandes latifúndios, que preserva uma mesma estrutura desigual, que produz uma massa de miseráveis, que concentra terras”, ou seja, ” é um debate que precisa ser feito sem ignorar os limites do que o presidente Lula vem falando, que diz respeito a essa grande potência que o país teria a partir dos biocombustíveis”.
Ela acrescenta, ainda, que um movimento da Europa em direção ao biocombustível brasileiro se daria muito mais sob a necessidade de “suprir uma demanda interna” do que “compreender que os biocombustíveis brasileiros são efetivamente uma superação de um modo de produção ainda destrutivo para o mundo”.
Fonte: HOJE BAHIA
