Em um cenário de incerteza na safra, custos elevados e forte dependência de importações, o setor de trigo deve adotar uma postura mais defensiva na safra 2026/27.
Para Paloma Venturelli, presidente do Moinho Globo, “não é momento de fazer grandes investimentos”, e a prioridade das empresas deve ser preservar margens, ganhar eficiência e ajustar processos diante de um mercado mais volátil e competitivo.
“Eu vejo que vai ser um ano muito desafiador e de imagens menores”, diz a executiva, que atribui à guerra no Oriente Médio alguns dos principais motivos para o impacto na cadeia.
“Já são novos custos, novas realidades, a gente já está em um outro patamar. E não vai reduzir. A guerra acabando amanhã, a gente continua sofrendo as consequências nos próximos 6 a 8 meses. Então eu vejo que o ano foi comprometido”, afirma
A safra de trigo ainda carrega elevado grau de incerteza. No Paraná, principal polo produtor e moageiro do país, as estimativas de redução de área variam amplamente, entre 6% e 18%, refletindo um ambiente de especulação e indefinição. Ainda assim, há expectativa de alguma compensação via produtividade, espera Venturelli, embora, como ressalta, o resultado só se confirma quando o grão está armazenado.
O desafio estrutural permanece. O Brasil segue distante da autossuficiência e deve registrar um ano de importações elevadas, possivelmente recorde. A dependência externa se intensifica especialmente até a entrada das safras locais e argentinas, o que expõe o setor a custos logísticos mais altos, como o frete marítimo, e a gargalos de embarque diante da demanda global aquecida.
No Paraná, where a demanda anual supera 4 milhões de toneladas, eventuais quebras de safra ampliam o déficit de abastecimento, obrigando a busca por produto em outros estados e, principalmente, na Argentina.
No entanto, a qualidade do trigo também preocupa, afetada por restrições econômicas que levam produtores a reduzir investimentos em insumos e manejo.
Diante desse quadro, a indústria intensifica estratégias para manter o padrão de qualidade. O uso de blends, mistura de diferentes tipos de trigo, torna-se ainda mais crítico, exigindo maior esforço de pesquisa, desenvolvimento e controle para equilibrar custo e desempenho, já que trigos de melhor qualidade têm preços mais elevados.
No campo dos investimentos, Venturelli destaca que a automação segue como tendência inevitável, especialmente diante da escassez de mão de obra em atividades operacionais mais intensivas. Ainda assim, ela afirma que embora investimentos em eficiência sejam necessários, o momento não favorece expansões agressivas.
“A recomendação é cautela. Empresas mais capitalizadas podem avançar, mas o cenário geral pede conservadorismo”, afirma. Segundo ela, 2026 e 2027 devem ser anos de ajuste interno, com foco na revisão de processos, redução de desperdícios e ganhos de produtividade. “É uma oportunidade de olhar para dentro, entender onde se perde dinheiro e melhorar a gestão. Cada 1 real faz diferença.”
O contexto internacional também pesa, com a guerra e seus efeitos sobre energia e cadeias produtivas elevando custos e criando um novo patamar de preços, cujos impactos devem persistir por pelo menos seis a oito meses, mesmo em caso de normalização do conflito. Com isso, as margens tendem a permanecer pressionadas.
Para repassar custos, a estratégia do setor tem sido gradual. Reajustes já vêm sendo aplicados há cerca de dois meses, em doses contínuas, evitando perdas abruptas de mercado em um ambiente de competição acirrada.
Fonte: CNN Brasil
