Treinador demonstra tristeza com morte de Cauã Batista: “Fez muito por mim”

Esporte

“Muitos acham que a relação de mentor e aluno é uma via de mão única, onde só quem tem a oferecer é aquele que ensina.

Cauã foi meu primeiro aluno infantil. Neguei-o muitas vezes, porque na turma só havia adultos pesados e graduados. Como eu iria inserir uma criança de 8, 9 anos num contexto desses? E faixa branca ainda. Caos. Se acontecesse algo ali, eu seria o responsável. E eu estava começando minha caminhada como professor. Tudo o que eu queria era fugir de uma responsabilidade grande.

Até que, depois de muita insistência (dele), cedi. Mas diversas vezes falei para o meu mestre que iria devolvê-lo para a aula das crianças. Geralmente, as crianças pedem para sair da minha aula; ele pediu para entrar. Então algo havia ali. Apanhou muito.

O tempo passou voando e, quando vi, o “mik” já era carne da minha unha e calo do meu pé, porque não me largava. Dava-me um trabalhão para gerir algumas questões e, por um tempo, eu dei um tempo. O tempo passou e, quando percebi, ele já estava enorme, com um bigode maior que o meu, sendo a maior referência de taekwondista que eu tinha em sala de aula.

Autodidata nato. Aprendia coisas sozinho, vendo vídeos, e aplicava na aula. Fez parte do meu exame de mestre e me deu uma bela bicuda nas costas, me jogando para fora da sala. Ali, acho que ele descontou, porque veio na covardia.

Esse cara amava a vida como nunca vi ninguém amar. Era intenso em tudo o que se propôs a fazer. Intensidade essa que desencadeou diversas brigas entre a gente. Era dedo na cara, alteração de voz (de lá e de cá). Pensa num “mik” boquirroto. Mas nunca me faltou respeito e nunca me chamou pelo meu nome dentro do dojang.

Se eu marcasse treino no Natal, ele estava lá. Sempre pontual e, às vezes, o único a ir. Comia tatame. E ele me ensinou a ensinar.

Os atrasos dele eram pelas coisas mais “Cauã” que você possa imaginar:
“Coloquei a meia para secar, ela molhou na chuva e eu fiquei procurando outra.”

Ajudava do velho ao novo, do faixa branca ao faixa preta. Ficava uma hora explicando um único exercício. Quando eu estava explicando algo, ele vinha e me complementava.

A galera julgava muito ele por complementar tudo o que eu falava na aula, porque muitos entendiam como se estivesse passando por cima de mim. Mas, caramba, se ele está me completando, por que eu vou calar? Deixa o “mik” se expressar. (Mas, às vezes, eu o mandava calar a boca.)

Sabe quantos anos ele demorou para ganhar um round? Foram 10 anos sem ganhar nada. Poderia ter largado, mas a paixão pela arte marcial falou muito alto. Caramba, o moleque não desiste.

Às vezes me mandava mensagem porque algo estava acontecendo e ele não estava conseguindo se controlar. Lá ia eu pegar um Uber para chegar cedo na academia e conversar com ele antes da aula. Às vezes vinha com o punho todo machucado, porque tinha socado a parede, e chorava como uma criança contando o caso. Eu dava algum tipo de conselho, deixava-o chorar e, no final, dizia: “Vou passar aula de kyorugi hoje.” O sorriso vinha de orelha a orelha (e que orelha).

Por muito tempo, era só ele que gostava de lutar e tinha coragem de enfiar a cara num torneio, valendo cabeça, quebrando o nariz. Fez um exército de alunos para competir na luta — exército esse que nem eu consegui montar. Roubou-me alunos do poomsae que viraram amantes do kyorugi.

Com isso, dei a ele o cargo de capitão da equipe de kyorugi. Ele era responsável por levantar quórum para treino específico, recrutar, organizar e ficar em cima da galera para zelar pelos equipamentos. Se os equipamentos ficassem desorganizados, ele ficaria sem treinar luta. Então imaginem o quão chato ele era com isso.

Um dia antes do acidente, levei-o para malhar comigo, porque ele estava fazendo os exercícios todos errados. Treinamos a série dele, depois a minha, e depois ele ainda fez duas aulas de taekwondo seguidas. Treinou cinco horas direto! E estava todo contente. No final, falou:
“Posso malhar sempre contigo?”

Detestava lutar leve. Ficava bravo quando vinham com leveza, porque foi criado, ainda criança, lutando com adultos com mais de 100 kg. Falava:
“Pô… aqui é porrada. É taekwondo! Fico bravo quando vejo no exame de faixa a galera fazendo luta leve. Na minha época, me sentavam a porrada e só me restava chorar.”

Fazê-lo entender que os tempos mudaram era difícil. Conseguir domar a fera que tínhamos criado era difícil. Porque eu dei asas e depois tive que ir podando.

Aquilo que falei lá em cima: ele fez muito mais por mim do que eu por ele. Porque, graças a ele, tive a oportunidade de viver grande parte da minha vida ao lado de alguém tão especial.

Agora que meu “casca de bala” se foi, resta-me organizar minha desorganização, continuar o legado e, como diria a música preferida dele, mesmo sem seu artista principal, o show tem que continuar.”

Fonte: CNN BRASIL

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