Nietzsche disse que no amor há sempre um pouco de loucura, e na loucura há sempre um pouco de razão.
Não sei se Nietzsche amou alguém. Imagino que sim, embora não consiga imaginar o filósofo alemão mandando flores, esperando telefonema ou perguntando:
– Você chegou bem em casa?
Mas filósofos também têm coração. O problema é que alguns fazem questão de tratá-lo como se fosse uma tese de doutorado.
Eu, particularmente, prefiro o amor dos ignorantes. É mais simples.
Foi o que pensei outro dia, sentado num bar na rua Minas Gerais, em Salvador, quando vi um homem de aproximadamente sessenta anos olhando para uma mulher com a expressão de quem acabara de descobrir que ela era a última mulher disponível no planeta.
Ela estava sentada a três mesas de distância.
Sozinha. Lia alguma coisa no celular.
Ele olhava.
Ela levantava os olhos.
Ele desviava.
Ela voltava ao celular.
Ele olhava novamente.
Era um diálogo.
Sem palavras, evidentemente. Mas todo mundo sabe que o amor começa justamente quando as palavras deixam de ser necessárias. Ou quando ninguém sabe o que dizer.
O homem finalmente criou coragem.
Levantou, caminhou até a mesa dela, parou.
– A senhora acredita em amor à primeira vista?
Ela olhou para ele.
– Não.
Ele pareceu decepcionado.
– Eu também não.
– Então por que perguntou?
– Porque precisava começar a conversa por algum lugar.
Ela sorriu.
Pronto, estava feito.
O amor, quando quer, não precisa de muito. Às vezes, basta uma pergunta idiota e uma resposta inteligente.
Fiquei observando os dois. Depois de alguns minutos, estavam conversando como se fossem velhos conhecidos.
Descobriram que moravam no mesmo bairro, frequentavam a mesma padaria e, provavelmente, haviam se cruzado dezenas de vezes sem perceber.
Isso é uma coisa curiosa no amor. A pessoa pode passar quarenta anos andando na nossa frente e, de repente, um dia, aparece, como se tivesse sido colocada ali pelo destino. Ou pelo garçom.
O garçom, aliás, apareceu pouco depois.
– Vai pedir alguma coisa?
O homem olhou para a mulher.
– O que você recomenda?
Ela respondeu:
– Um chope.
– Dois.
O garçom saiu e eu pensei: está apaixonado. Porque ninguém pede dois chopes com tanta convicção sem estar apaixonado, a menos que esteja com muita sede, claro.
A conversa continuou.
Ela contou que era divorciada.
Ele também.
Ela tinha dois filhos.
Ele, três.
Ela gostava de música.
Ele dizia gostar, embora depois tenha confessado que seu conhecimento musical terminava em Raul Seixas.
Ela riu, ele gostou do riso.
E aí começou o problema.
Porque amor é isso: começa com um sorriso e, quando a gente percebe, já está pagando a conta de dois.
Nietzsche tinha razão. Há sempre um pouco de loucura no amor.
Veja o caso daquele homem. Conheceu uma mulher há quinze minutos e já estava pensando em comprar um segundo celular só para falar com ela.
Isso não é racional e também não é normal. Mas quem disse que o amor é normal?
Normal é reclamar do preço da gasolina. Da chuva que cai. Da chuva que não cai…
Normal é dizer que vai dormir cedo e ficar até meia-noite vendo vídeos que não interessam a ninguém.
Amor não. Amor é mandar mensagem às duas da manhã perguntando: “você está acordada?” E depois ficar desesperado porque a pessoa não respondeu.
Isso é loucura.
Mas existe uma razão escondida aí. A gente só fica assim porque, por alguns instantes, alguém conseguiu nos convencer de que a vida pode ser melhor com ela dentro.
E isso é uma razão bastante razoável.
O problema é quando a pessoa responde. Porque aí começa a parte realmente complicada.
O namoro, a convivência. O “você não vai mesmo perceber que eu cortei o cabelo?” O “quem é essa mulher que curtiu sua foto?” O “você vai sair com seus amigos justo hoje?” O “não é nada, eu estou ótima”.
Esta última frase, todos sabemos, significa exatamente o contrário.
O amor é cheio dessas pequenas loucuras. Talvez porque a razão, sozinha, seja uma companhia muito chata.
Imagine uma vida completamente racional.
Você acordaria às sete.
Tomaria café às sete e quinze.
Trabalharia até as seis.
Faria exercícios.
Comeria salada.
Pagaria as contas em dia.
Não compraria nada de que não precisasse.
Não beberia demais.
Não mandaria mensagens para ex-namoradas.
Não se apaixonaria por pessoas complicadas.
Não faria serenatas.
Não viajaria sem dinheiro.
Não atravessaria Salvador de madrugada só para dizer “eu te amo”.
Seria uma vida perfeitamente organizada.
E absolutamente sem graça.
Talvez por isso a humanidade tenha inventado o amor. Para cometer pequenos erros que fazem a vida parecer certa.
Voltei a olhar para o casal. Já estavam no segundo chope. Ela tinha guardado o celular. Ele havia parado de olhar para o relógio. E os dois sorriam.
Não sei se ficaram juntos.
Não sei se aquilo durou uma semana, dez anos ou apenas aquela noite.
Também não importa, porque há amores que não precisam durar para provar que existiram. Às vezes, basta que alguém faça a gente se sentir novamente um pouco louco.
E um pouco vivo.
Nietzsche provavelmente diria que isso é filosofia.
Eu digo que é Salvador. Aqui a gente já nasce sabendo que algumas coisas não precisam fazer sentido.
O Carnaval, por exemplo.
O trânsito da Paralela.
O preço de um camarão na praia.
E, principalmente, o amor.
Talvez seja por isso que eu goste tanto daquela frase de Nietzsche. Porque ela sugere uma coisa que a vida confirma diariamente: a loucura não é o contrário da razão.
Às vezes, é a razão que a vida encontrou para nos impedir de desistir dela.
E se isso não fizer sentido…
Melhor ainda.
É sinal de que pode ser amor.
Fonte: HOJE BAHIA