O espelho de três faces

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Mandei o texto da crônica para o Cassio. Não pedia elogios – pedia um olhar. Mas ele, que é leitor voraz e amigo traiçoeiro, leu em silêncio, coçou o queixo e fez a pergunta que todo escritor teme:

– Este texto é seu?

Senti o chão sumir. Claro que era meu. Cada vírgula suada, cada adjetivo pescado no fundo do dicionário. Mas ali, sob o olhar crítico do Cassio, a frase soou como acusação. Plágio? Inconsciente? Ou pior: falta de estilo?

– Foi – respondi, recuperando o fôlego -, mas agora é seu, é meu e de quem mais se arvorar a lê-lo.

Ele sorriu. Um sorriso que conheço bem – o mesmo que ele dá quando descobre que o vinho que elogiou é de caixinha.

– Parece do Rubem Braga, do Veríssimo e tem um “toque” do Ubaldo.

Não era elogio. Era um laudo pericial. Como se meu texto fosse um quadro falsificado, assinado por três mestres mortos-vivos. Rubem pela leveza, Veríssimo pelo sarcasmo, Ubaldo pela crueza. Eu, ali, apenas um funileiro remendando latas alheias.

Quis argumentar. Explicar que somos todos amálgamas – que cada palavra que escrevo já foi soprada por alguém que li, amei ou odiei. Que ninguém se constrói por si só, nem o espinho sem a rosa, nem o vento sem a montanha. Que até o Cassio, com seu ar de dono da verdade, fala como o pai quando está bêbado.

Mas preferi calar.

Porque a lição, amarga, era outra: jamais devemos mostrar nossos feitos a outras pessoas. Não porque elas roubem ou critiquem. Mas porque, ao nos verem no espelho dos outros, deixamos de ser nós. Viramos um mosaico de referências, uma colcha de retalhos que o amigo desfia com a ponta dos dedos.

Naquela noite, reescrevi o texto. Tirei os adjetivos que soavam a Braga, cortei as ironias que cheiravam a Veríssimo, enterrei a crueza que Ubaldo plantou em mim. Ficou seco, estranho, quase feio. Mas era meu. Ou pelo menos, não era de ninguém mais.

No dia seguinte, mostrei ao Cassio de novo. Ele leu, franziu a testa e disse:

– Agora parece com o Beckett. Mas sem graça.

Sorri. Guardei o texto na gaveta. E aprendi que o único jeito de ser original é não mostrar nada a ninguém – ou então, mostrar tudo e deixar que os outros encontrem nessa bagunça o que quiserem. Até porque, no fundo, o Cassio tem razão: somos todos um pouco Braga, Veríssimo e Ubaldo. Mas também somos aquele silêncio que vem depois da leitura, quando ninguém mais está olhando.

E esse silêncio, esse sim, ninguém plagia.



Fonte: HOJE BAHIA

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