Há alguns anos conheci um homem que parecia morar dentro de uma vitrine de um luxuoso shopping center..
Obviamente, não era de vidro a casa dele. Era de tijolo mesmo. Mas tudo o que fazia parecia destinado aos olhos dos outros. Comprou um carro que não podia pagar para impressionar pessoas de quem nem gostava. Trocou de celular porque o antigo já não despertava inveja. Vestia marcas famosas. Até o sorriso parecia ensaiado diuturnamente diante do espelho.
Um dia perguntei se era feliz.
Ele balbuciou algumas palavras enquanto se esforçava para mostrar o relógio.
Confesso que fiquei esperando a verdadeira resposta, mas ela nunca veio.
Foi então que me lembrei da antiga frase dos sábios orientais: “o mundo material é uma ilusão”. Durante muito tempo achei que eles estivessem dizendo que as pedras não existiam, que o dinheiro era imaginário ou que uma panela vazia matava apenas a fome da imaginação. Depois descobri que não era isso.
A ilusão não está na matéria. Está no encanto que depositamos nela.
O ouro existe. O automóvel existe. A casa existe. A conta bancária existe. O problema começa quando acreditamos que essas coisas podem fazer o serviço que pertence à alma.
É como comprar uma linda moldura esperando que ela pinte o quadro.
Talvez por isso haja tanta gente rica colecionando ansiolíticos e tanta gente simples distribuindo paz. A etiqueta informa o preço; nunca o valor.
Lembro do velho armazém na Maragogipe da minha infância. O dono pesava feijão numa balança enferrujada, anotava a compra num caderninho e ainda perguntava pela saúde da família. O estabelecimento era pobre em mercadorias sofisticadas, mas rico naquilo que hoje falta aos grandes shoppings: tempo para as pessoas.
Naquela época ninguém fotografava o prato antes de comer o almoço. A comida tinha a estranha mania de servir para alimentar.
Hoje fotografamos quase tudo e saboreamos quase nada.
A vida virou uma coleção de embalagens bonitas. O conteúdo, muitas vezes, ficou esquecido no depósito.
Não defendo a pobreza. A miséria nunca foi virtude. O conforto é bem-vindo, a tecnologia aproxima, o dinheiro resolve problemas reais. Seria ingenuidade fingir o contrário. Mas existe uma diferença enorme entre possuir as coisas e ser possuído por elas.
A primeira situação é liberdade.
A segunda é servidão com acabamento de luxo.
Talvez seja esse o sentido escondido naquela velha frase. O mundo material não é uma ilusão porque não exista. É uma ilusão porque promete aquilo que não pode entregar.
Nenhum relógio bacana compra mais um minuto de vida.
Nenhuma cama de ouro garante uma noite de sono.
Nenhuma roupa de grife veste uma consciência tranquila.
E nenhum cofre, por maior que seja, consegue guardar um abraço para ser usado amanhã.
No fim das contas, quando a existência fecha as portas da loja e apaga as luzes da vitrine, descobrimos que as únicas riquezas que continuam conosco são justamente aquelas que nunca tiveram etiqueta de preço.
Fonte: HOJE BAHIA