A feira internacional VivaTech completa uma década de existência em 2026, consolidando-se como o epicentro da inovação e do desenvolvimento corporativo no continente europeu. A edição deste ano atraiu um público recorde de 200 mil pessoas, reunindo representantes de 165 países e uma massa crítica de mais de 15 mil startups que ajudam a modelar os rumos do mercado global.
Para além de uma vitrine de tendências, o VivaTech se consolidou como um ecossistema estratégico que força empresas de diferentes áreas da tecnologia a interagirem, cooperarem e, fundamentalmente, fecharem negócios de grande porte. A dinâmica do evento acelera a fusão entre indústrias tradicionais e soluções disruptivas, transformando ideias em receita e parcerias comerciais sólidas.
O Brasil na vanguarda da inovação global
O mercado brasileiro marcou presença institucional no pavilhão parisiense por meio da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). A agência capitaneou a participação de 15 startups, provenientes de diversas regiões do país, focadas em verticais de alta relevância como Inteligência Artificial, health tech, climate tech e indústria 5.0.
Mariele Christ, gerente de indústria e serviços da ApexBrasil, destacou à CNN o papel da instituição em auxiliar os setores econômicos a expandirem globalmente e a atraírem investimentos internacionais para a economia nacional.
“Muitas delas [empresas] representam diferentes soluções e estão aqui buscando conexões globais, sejam para parcerias internacionais, expandirem os seus negócios em outros países, especialmente aqui na França e na Europa, mas também para atraírem investimentos internacionais para que elas possam escalar as suas soluções cada vez mais.”
O Palco da “Startup Nation” de Emmanuel Macron
Além de seu peso comercial, o VivaTech consolidou-se ao longo desta última década como uma peça central de diplomacia econômica e uma das principais ferramentas políticas do presidente Emmanuel Macron.
Desde sua primeira eleição, em 2017, Macron utilizou os palcos do evento como vitrine ideológica para o seu projeto de transformar a França em uma “Startup Nation“. O uso estratégico do festival serviu tanto como plataforma eleitoral para legitimar suas reformas trabalhistas e fiscais frente à opinião pública quanto como um chamariz para o Investimento Estrangeiro Direto, projetando o país como o principal polo de venture capital da Europa Continental.
A relevância macroeconômica da feira atrai anualmente a liderança de Wall Street e do Vale do Silício.
Nesta edição de 10 anos, a presença de grandes titãs globais, como o fundador da Amazon, Jeff Bezos, reforçou o status do VivaTech como o ponto de encontro mandatório para debater a governança de novas tecnologias e a alocação de megafundos de investimento.
A passagem de lideranças desse calibre valida a infraestrutura francesa como o ecossistema preferencial para os grandes fluxos de capital voltados à inovação disruptiva.
O avanço geopolítico da China e o papel de Hong Kong
O xadrez geopolítico da tecnologia ficou evidente com o avanço agressivo da China na exportação de soluções tecnológicas sobre outras nações. Um dos grandes destaques dessa movimentação foi o Hong Kong Tech Pavilion, organizado pelo HKTDC (Hong Kong Trade Development Council), que apresentou 24 startups locais focadas em se conectar com oportunidades globais de investimento.
A relevância estratégica desse ecossistema foi sintetizada por Pan Yunta, assistente executiva da Anlaseo Technology Limited — empresa apoiada pela Universidade Politécnica de Hong Kong, região que se comunica com o mundo inteiro, “e é muito internacional. Então para a parte técnica, também para pessoas, para a China continental. Eu acho que aprendo muito em Hong Kong e acho que ela tem um papel importante no VivaTech”, disse Yunta à CNN.
Inteligência Artificial: Produtividade e Impacto Social
A Inteligência Artificial foi o grande motor econômico desta edição, reconfigurando profundamente os modelos de negócios globais. Diante do debate caloroso sobre a automação e o temor da substituição da força de trabalho humana, Eneric Lopez, Diretor de IA & Impacto Social da Microsoft na França, trouxe uma perspectiva focada no aumento de eficiência e bem-estar.
Para ele, a IA não deve substituir a mão de obra humana em larga escala. Lopez apontou que a tecnologia transforma a maneira como operamos ao analisar cerca de 30 mil tarefas corporativas diferentes, exigindo um aprendizado contínuo.
“Primeiramente, IA pode ser um agente automatizado, mas no fim das contas, humanos programam IA e isso é o maior produto que temos, onde nós precisamos ter humanos no fluxo e em qual parte do processo queremos dar aos agentes autônomos”, defendeu. Para o diretor, a criatividade, a comunicação e o relacionamento continuam exigindo o fator humano.
“Não estou dizendo que IA não pode automatizar tudo. Mas sim que isso é nossa escolha colocar IA em determinados processos, e mesmo assim manter humanos no fluxo por muitas razões.”
Pelo lado mercadológico, Lopez ressaltou que a IA está gerando impactos altamente positivos ao empoderar ONGs e startups na preservação da biodiversidade, línguas e heranças culturais, por exemplo. Um dos projetos mais emblemáticos em estudo na Europa é a construção de “digital twins” (gêmeos digitais) em 3D de monumentos históricos iconográficos — como a Basílica de São Pedro, em Roma, e a Catedral de Notre-Dame, em Paris.
A iniciativa utiliza mais de 400 mil imagens para erguer modelos tridimensionais detalhados, permitindo uma compreensão sem precedentes sobre a arquitetura e a história da arte dos prédios históricos.
Beauty Tech e AI unem forças
A transformação digital também redesenhou o ramo da beleza com anúncios de peso econômico. Durante o VivaTech, o Grupo L’Oréal e a OpenAI anunciaram uma colaboração inédita voltada ao mercado de beleza — incluindo recursos de provador virtual da Maybelline integrado ao ChatGPT — e impulsionar áreas internas que vão do marketing à ciência.
Utilizando o modelo GPT-Rosalind, a empresa passou a mapear o microbioma da pele em escala inédita para acelerar o desenvolvimento de produtos para a La Roche-Posay.
Asmita Dubey, Chief Digital e Marketing Officer da L’Oréal, reforçou a meta ambiciosa por trás da parceria. “Na L’Oréal, acreditamos que podemos ser mais exigentes com a IA para aumentar nossos consumidores de beleza, nossas áreas como Marketing e Pesquisa, e nossos funcionários. Nossa colaboração com a OpenAI apoia estruturalmente essa ambição de trazer novas soluções dentro da vertical de beleza.”
A tradicional francesa de beleza mantém os olhos na chamada “Silver Economy”, voltada ao público idoso – e cada vez mais idoso. Para Barbara Lavernos, Deputy CEO da L’Oréal Groupe, o impacto dessa economia redefine o consumo voltado para o envelhecimento populacional.
“A Silver Economy para mim é sobre o novo paradigma na longevidade. As pessoas estão vivendo mais, a expectativa de vida está se expandindo desde os anos 50 em mais de uma década”, destacou ela.
“O problema é que as pessoas estão vivendo mais, mas não mais saudáveis. Então esse novo paradigma da mudança da longevidade é muito importante quando o assunto é beleza. E por quê? Porque a nossa pele é o maior órgão do ser humano. É também o único órgão que está dialogando com todos os outros órgãos no seu corpo, significando que saúde e longevidade estão fortemente ligados à sua saúde capilar e saúde da pele.”
Para sustentar uma guinada tecnológica do setor, o Grupo L’Oréal continua investindo cifras altas: foram 1,3 bilhão de euros aportados diretamente na divisão de Pesquisa e Inovação, acompanhados de investimentos em Tecnologia e Inteligência Artificial que alcançaram a cifra de 1,5 bilhão de euros em 2025, segundo Lavernos.
Fonte: CNN Brasil
