Eu estava sentado na praça da Matriz, em Mar Grande, olhando o mar.
De repente, uma mulher sentou ao meu lado. Tinha saído da igreja.
– Esperando alguém? – perguntou.
– Não – respondi – Estou passando o tempo, curtindo o mar. E me despedindo.
– Acho estranho, – disse ela – as pessoas costumam esperar. Despedir-se é mais raro.
Olhei para o mar e vi barcos pequenos cortando a água. Pareciam os mesmos barcos de cinquenta anos atrás. Talvez fossem. Talvez o mundo mude menos do que imaginamos e nós é que envelhecemos depressa.
Conversamos amenidades. Ela me disse que se chamava Isa e eu contei a ela que havia sonhos que não realizei, livros que não escrevi quando devia. Amigos que “deixei para depois”. Amores que partiram enquanto eu estava ocupado demais planejando o futuro e ganhando dinheiro.
Ela sorriu com uma gentileza antiga.
– Você fala como se tivesse escolha.
Fiquei ofendido. Claro que tive escolha. Todos temos. Escolhi estudar, trabalhar, amar, errar, insistir, desistir. Escolhi estradas. Escolhi portos. Escolhi até alguns naufrágios.
Mas ela continuava sorrindo.
– Escolheu, sim. Mas havia outra coisa escolhendo ao mesmo tempo.
– O quê?
Ela apontou para o céu, para o mar, para as rugas em minhas mãos.
– O tempo.
Fiquei em silêncio. Porque era verdade. Passamos a vida acreditando que estamos segurando o leme do barco, quando muitas vezes estamos apenas aprendendo a navegar.
Plantamos roseiras sem saber das tempestades. Construímos castelos de areia ignorando as marés. Fazemos promessas como quem imagina que o calendário nos pertence. E então chega uma força invisível que muda tudo: o menino vira pai. O pai vira avô. O avô vira retrato. A praça da infância vira estação do Metrô. O cinema vira igreja neopentecostal. A carta vira e-mail. O disco vira arquivo na “nuvem”. E a moça mais bonita da rua Amazonas passa a morar apenas numa lembrança teimosa.
Tudo gira.
Tudo roda.
Tudo parte.
Até aquilo que jurávamos eterno.
Olhei novamente para Isa.
Ela parecia mais jovem agora. Ou talvez fosse eu quem estava mais velho.
Perguntei se ela não se cansava de perder tantas coisas.
Ela respondeu:
– Você ainda não entendeu. Eu não sou feita das coisas que ficaram. Sou feita das coisas que passaram.
A frase me atingiu como um vento frio.
Porque naquele instante compreendi que a vida não é um álbum de fotografias. É uma roda. Uma enorme e misteriosa roda. Ela leva os amores, os carnavais, as serenatas, os cabelos escuros, os pais, os filhos pequenos, as tardes de domingo, os sonhos interrompidos e até as tristezas que julgávamos permanentes.
Leva tudo. Sem pedir licença. Sem explicar.
Mas, curiosamente, enquanto leva, também traz. Traz novas crianças para as praças. Novos amores para os bancos de jardim. Novas canções para os violões. Novos espantos para os olhos cansados.
A roda não é apenas perda. É movimento.
Quando me dei conta disso, Isa havia desaparecido.
Fiquei novamente sozinho diante do mar. O vento soprava. As ondas vinham e voltavam.
E eu pensei que talvez a sabedoria não esteja em tentar parar a roda. Nem em correr atrás dela. Talvez esteja apenas em dançar, mesmo sabendo que a música acaba. Mesmo sabendo que a festa termina. Mesmo sabendo que tudo gira.
Porque, no fim das contas, a grande generosidade do tempo é esta: ele leva embora aquilo que amamos, mas deixa conosco a estranha e bela capacidade de ter amado.
A rádio poste tocava a música de Chico Buarque que ainda ressoa na minha mente:
“Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião…”
Fonte: HOJE BAHIA
