Hoje acordei pensando nas mulheres da minha vida. Queria dormir mais um pouco, mas o pensamento se voltava para elas. Minha mãe, Dalva, que deixou este mundo para virar estrela; Tia Amália; Tereza, dona do meu primeiro beijo; Maria, a portuguesinha “dalí da frente”; Iracema, uma paixão; Ediane; Zezé; Telma; Cris…
Na verdade, conheci muitas mulheres ao longo da vida. Algumas chegaram fazendo festa, outras entraram devagarinho, como quem pede licença para ocupar um espaço dentro do coração. Houve as que deixaram perfume nos lençóis, as que deixaram fotografias nas gavetas e as que deixaram apenas uma vaga sensação de que o mundo já foi melhor.
Mas nenhuma foi tão persistente quanto uma certa “mulher” chamada Saudade. Ela não tem endereço fixo. Mora onde quer. Às vezes escolhe uma música de forró tocando num rádio distante. Outras vezes se instala no cheiro de jasmim, na esquina de uma rua antiga ou no balanço de uma rede numa tarde de domingo em Itacimirim.
Saudade é dessas mulheres que aparecem quando a gente menos espera. A gente está bem, pagou as contas, resolveu os problemas. Até o Bahia venceu. Então ela surge.
Senta ao lado e pergunta:
– Lembra?
Pronto, lascou! Acabou-se a tranquilidade.
O sujeito mais valente do mundo fica sem defesa. O empresário bem-sucedido esquece os números da planilha. O doutor perde a eloquência. O político perde o discurso. O poeta perde a rima. E todos, sem exceção, obedecem. Porque a Saudade tem um talento raro: ela transforma ausências em presenças.
Um beijo de quarenta anos atrás reaparece mais nítido que a conta de luz vencendo amanhã. Um abraço antigo pesa mais que uma mala cheia de dinheiro. Um olhar esquecido atravessa décadas para lembrar ao coração que o tempo passa, mas certas coisas se recusam a envelhecer.
Talvez por isso a saudade tenha mesmo nome de mulher. Não porque queira fazer do homem o que bem quer. Mas porque, como as grandes mulheres da nossa vida, ela tem o estranho poder de permanecer mesmo depois de partir.
E quando chega, não há conversa, cachaça, remédio ou filosofia que dê jeito. A gente apenas senta ao seu lado. E lembra. E às vezes chora…
Fonte: HOJE BAHIA
