Ação judicial questiona uso de recursos da Lei Rouanet no São João

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Uma ação popular protocolada na Justiça estadual da Paraíba levanta suspeitas sobre possível desvio de finalidade no uso de recursos públicos e incentivos fiscais destinados à cultura.

O processo, que tramita na 2ª Vara da Fazenda Pública de Campina Grande, foi movido pelo advogado Ricardo Tadeu Feitosa Bezerra e tem como alvo o Município de Campina Grande, além de empresas envolvidas na execução dos projetos culturais.

A ação questiona a aplicação de verbas oriundas da Lei nº 8.313/1991, conhecida como Lei Rouanet, e aponta indícios de irregularidades na gestão dos recursos destinados ao evento.

Suspeitas de desvio e “pirâmide invertida”

De acordo com a petição, há indícios de que grande parte dos recursos públicos estaria sendo direcionada para despesas de infraestrutura e logística, em detrimento dos artistas — que deveriam ser o foco principal das políticas de fomento cultural.

O documento destaca uma possível “inversão da pirâmide de custos”, na qual serviços como montagem de palco, iluminação e logística absorvem parcelas significativamente maiores do orçamento do que os cachês artísticos.

Além disso, a ação levanta a hipótese de concentração de pagamentos em empresas ligadas ao mesmo grupo econômico da produtora responsável pelos projetos, o que pode caracterizar autofaturamento e conflito de interesses.

Valores milionários sob análise

Os números envolvidos chamam atenção. Apenas um dos projetos para o São João de 2026 teve aprovação superior a R$ 13 milhões em captação de recursos incentivados.

Dados de relatórios financeiros também indicam pagamentos elevados para serviços estruturais — como locação de equipamentos de som, iluminação e montagem de estruturas — enquanto artistas locais aparecem com remunerações significativamente menores em comparação ao total investido.

A ação argumenta que essa desproporção pode indicar uso indevido dos recursos públicos e renúncia fiscal.

Debate sobre a preservação do Forró

A discussão jurídica se soma a um debate mais amplo sobre a preservação das tradições culturais nordestinas. Estudos na área de educação patrimonial apontam que o uso indevido da Lei Rouanet pode comprometer a sobrevivência de manifestações culturais reconhecidas como Patrimônio Imaterial do Brasil.

Segundo análise do pesquisador, Dr. Alfranque Amaral, Coordenador Municipal do Fórum Nacional do Forró em Campina Grande-PB, em artigo sobre o tema, afirma que projetos financiados com isenção fiscal total deveriam priorizar diretamente os detentores dessas tradições, como os artistas do Forró, o que nem sempre estaria acontecendo. O referido artigo colocou luz sobre o assunto, de modo determinante para o aprofundamento das investigações.

O estudo ainda alerta que recursos destinados à valorização dessas manifestações estariam sendo utilizados para financiar atrações e estruturas que não têm relação direta com o patrimônio cultural protegido, o que é um desvio de finalidade.

Pedidos na Justiça

Entre os principais pedidos da ação estão:

* Suspensão imediata de repasses públicos e da captação via Lei Rouanet para novos projetos;

* Bloqueio de contas vinculadas aos projetos investigados;

* Anulação de contratos considerados irregulares;

* Ressarcimento de eventuais danos ao erário.

A Justiça ainda deve analisar o pedido de tutela de urgência, que pode interromper a execução dos projetos enquanto o mérito da ação é julgado.

Possível efeito em outras cidades

Especialistas avaliam que o caso pode abrir precedente para questionamentos semelhantes em outros municípios do Brasil, onde grandes festas populares também utilizam recursos incentivados.

Caso as irregularidades sejam confirmadas, o impacto pode levar a mudanças na forma como eventos culturais são financiados e fiscalizados no país.

Cultura em debate

Enquanto o processo avança, o tema reacende discussões sobre o equilíbrio entre tradição e mercado nos grandes eventos populares. De um lado, a necessidade de estrutura e atração de público; do outro, a preservação da identidade cultural e o respeito aos artistas que mantêm viva a tradição.

O desfecho da ação poderá redefinir não apenas o futuro do São João de Campina Grande, mas também os rumos do financiamento cultural no Brasil.

“Viva o Forró, viva a cultura popular brasileira.”

Fonte: HOJE BAHIA

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