A estrela que sabia contar histórias

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Maria tinha dois anos e três meses – idade em que o mundo ainda cabe dentro de um livro ilustrado e qualquer palavra pode virar magia. Gostava de histórias como quem gosta de uva passas: sem medida e com brilho nos olhos.

Seu fornecedor oficial de encantamentos era o vovô Malaquias, um homem que parecia ter sido inventado só para isso. Sentava-se ao lado dela com um livro nas mãos – desses cheios de figuras coloridas – e, entre um príncipe atrapalhado e um sapo filosoficamente duvidoso, ia costurando tardes inteiras de imaginação.

Maria ganhava muitos livros dos pais, Carol e Filipe. Mas, sejamos honestos, o que ela realmente consumia não era papel – era o jeito do avô. Porque vovô Malaquias não lia histórias: ele soprava vida nelas.

Até que um dia, como acontece com tudo que é muito bonito, surgiu um tropeço.

– Amor… vovô já não consegue mais ler as palavras dos livros…

Maria, com a sabedoria prática de quem ainda acredita que os problemas do mundo se resolvem com soluções simples, respondeu:

– Bota os óculos, vovô.

Vovô botou. Tirou. Limpou. Ajustou. Mas as palavras continuaram fugindo, feito crianças malcriadas.

– Então inventa as histórias… – sugeriu Maria, sem perceber que acabara de promover o avô de leitor a criador.

E ele inventou.

Inventou tanto que, por um tempo, parecia que a imaginação era um músculo inesgotável. Criou dragões que tinham medo de borboletas, princesas que salvavam cavaleiros e insetos que davam conselhos existenciais – estes, aliás, favoritos de Maria. E até pescadores que mergulhavam para salvar estrelas que caiam no mar.

Mas o tempo, esse editor rigoroso da vida, foi encurtando os capítulos.

Chegou o dia em que vovô Malaquias não conseguia mais nem inventar.

E o silêncio, que nunca tinha sido convidado, passou a frequentar as tardes.

Maria até ouviu histórias dos pais, que se esforçavam com carinho. Mas havia algo que não se imitava: o jeito do avô de transformar qualquer frase em abrigo.

Até que veio a notícia que nenhuma criança deveria precisar entender.

– O vovô… foi embora – disse Carol, com a voz tropeçando.

Maria pensou um pouco. Pensou com a lógica própria de quem ainda não desaprendeu a ver o invisível.

– Os vovôs não morrem, mamãe. Eles viram estrelas e vão morar no céu. De lá, continuam cuidando das crianças. É por isso que tem tanta estrela lá em cima.

Carol não discutiu. Algumas verdades são grandes demais para caber em explicações.

Em vez disso, pegou um texto deixado por vovô Malaquias e começou a ler:

“Minha querida Maria… quando você ouvir estas palavras, estarei morando no céu…”

E ali, entre lágrimas e sorrisos, o velho contador de histórias fez o que sempre soube fazer melhor: continuou contando.

Falou de coragem, de amor, de respeito por todas as profissões – e, claro, fez questão de incluir os insetos, porque certos hábitos não se perdem nem com a eternidade.

E Maria ouviu.

Talvez sem entender tudo. Mas sentindo – que é a forma mais profunda de compreensão.

Naquela noite, antes de dormir, olhou para o céu.

E, pela primeira vez, não viu apenas estrelas.

Viu um monte de histórias acesas.



Fonte: HOJE BAHIA

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