O Homem que ficou pobre de tanta vontade

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Dizem – e dizem com aquela segurança típica das frases que atravessam séculos – que Platão afirmou: “A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos.”

Confesso: sempre desconfio de frases perfeitas. Elas costumam esconder armadilhas elegantes. Mas essa… essa não. Essa é daquelas que chegam de mansinho e, quando você percebe, já rearrumaram os “bits”, neurônios e snapses da sua consciência.

Outro dia, na feira de Mar Grande – porque, ultimamente, as grandes reflexões insistem em acontecer entre bananas, tomates e goles de cachaça – observei um homem simples, desses que carregam sacolas como se fosse Atlas, o titã, que carrega o mundo sem reclamar. Comprou o necessário: um punhado de feijão, umas frutas, um pedaço de carne. Pagou, agradeceu e saiu com um sorriso contagiante e uma tranquilidade quase ofensiva.

Ofensiva, sim. Porque, logo atrás dele, vinha um sujeito com o carrinho transbordando. Não de comida, mas de ansiedade. Celular na mão, comparando preços, comparando marcas, comparando – imagino – a própria vida com a dos outros. Comprava mais, levava mais, e parecia ter menos.

Foi então que entendi o que talvez Platão estivesse tentando nos dizer sem saber que, séculos depois, inventaríamos o parcelamento em vinte e quatro vezes: a pobreza mais cruel não é a de quem tem pouco, mas a de quem nunca acha suficiente.

O desejo, quando nasce, é até bonito. Tem algo de esperança nele. Um querer que aponta para o futuro, que nos move, que nos levanta da cadeira. O problema é quando ele descobre que pode se multiplicar.

E ele aprende rápido.

Queremos uma casa – depois queremos uma casa maior.

Queremos um sapato – depois queremos o modelo novo.

Queremos amor – depois queremos garantias, certezas, confirmações diárias, recibo emocional assinado e com firma reconhecida em cartório.

E assim vamos, inflando a alma de vontades até não caber mais nada dentro dela – nem paz, nem silêncio, nem aquele contentamento tímido que só aparece quando a gente para de pedir ao mundo o que ele nunca prometeu dar.

Há, nesse processo, uma ironia quase poética: quanto mais desejamos, mais dependemos. E quanto mais dependemos, mais pobres ficamos – não de dinheiro, necessariamente, mas de sossego.

O homem da feira, aquele das sacolas leves, talvez tenha entendido algo que a maioria de nós insiste em esquecer: riqueza não é acúmulo, é suficiência. É aquele instante raro em que a vida olha para você e você, pela primeira vez, não pede nada em troca.

Claro, ninguém aqui está propondo virar estátua ou monge. Desejar faz parte do pacote humano – junto com errar, exagerar e prometer que “agora vai ser diferente”. Mas talvez o segredo esteja menos em eliminar os desejos e mais em educá-los.

Ensinar ao desejo que ele não manda. Que ele pode sugerir, mas não governar. Que nem tudo que brilha na vitrine precisa morar dentro da gente.

No fim das contas, talvez a verdadeira pobreza seja essa incapacidade de dizer “já basta” – uma frase curta, simples, quase humilde… e, por isso mesmo, tão difícil de pronunciar.

Enquanto isso, seguimos: alguns contando moedas, outros contando vontades. E, curiosamente, nem sempre é o primeiro que dorme mais preocupado.



Fonte: HOJE BAHIA

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