Manual prático para escolher entre a Verdade e a Ilusão

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Dizem que a verdade liberta. Mas ninguém diz, porém, que ela costuma chegar sem avisar, sem bater à porta e, pior, sem pedir licença para bagunçar a sala, o quarto, a vida. A verdade é dessas visitas inconvenientes que aparecem no domingo à tarde, quando você ainda está de chinelo, segurando um café morno e tentando acreditar que está tudo sob controle, mesmo depois da derrota do Bahia.

Já a ilusão… ah, a ilusão é educada. Chega perfumada, elogia a cortina nova, diz que você está ótimo – mesmo quando não está – e ainda se oferece para lavar a louça. A ilusão é, sem dúvida, uma excelente companhia. Temporária, é verdade, mas quem nunca se apegou ao que “é bom enquanto dura”? Sorry Vinícius.

Outro dia, me peguei pensando nisso enquanto observava um sujeito na feira de Mar Grande, município de Vera Cruz, Bahia – desses que escolhem frutas como quem escolhe destinos. Ele apertava uma manga, cheirava outra, analisava uma terceira com um cuidado quase filosófico. Fiquei imaginando: será que ele prefere a fruta doce, ainda que meio passada, ou a firme e verde, prometendo um sabor que talvez nunca chegue?

Porque, no fundo, é disso que se trata.

A verdade é a fruta madura: às vezes doce, às vezes passada, mas nunca enganosa. Já a ilusão é aquela manga bonita, perfeita por fora, que a gente leva para casa cheio de esperança – e só depois descobre que faltava alguma coisa ali dentro.

Mas veja bem: não estou aqui para demonizar a ilusão. Seria injusto. Há dias em que a verdade pesa demais. Dias em que a gente só precisa acreditar que tudo vai dar certo, mesmo sem nenhuma evidência concreta. É como colocar um curativo colorido numa ferida que ainda está aberta – não resolve, mas dá um certo alívio.

O problema começa quando a gente passa a viver de curativos.

Conheci gente que construiu verdadeiras mansões de ilusão – com varanda, jardim e até vista para o mar. Moravam bem, aparentemente felizes, até o dia em que veio o primeiro vento mais forte… e levou tudo. Porque a ilusão, apesar de charmosa, não tem fundação.

A verdade, por sua vez, é meio pedreira. Exige esforço, machuca as mãos, suja a roupa. Mas, curiosamente, é com ela que se constrói algo que fica.

Então, qual escolher?

Olha… se você me perguntar num dia bom, eu digo: escolha a verdade. Sempre. Mesmo que doa, mesmo que derrube, mesmo que obrigue a recomeçar do zero.

Mas, se me perguntar num dia ruim – daqueles em que o mundo parece grande demais e a gente, pequeno demais – talvez eu responda diferente. Talvez eu diga: fique um pouco na ilusão. Só um pouco. O suficiente para respirar.

O segredo, acredito, não está em nunca se iludir… mas em não esquecer que é ilusão.

Porque viver enganado sem saber é prisão.

Mas se permitir um pequeno engano consciente… isso, meu amigo, às vezes é só sobrevivência com um toque de poesia.

E, convenhamos: entre sofrer e sorrir, ainda que por engano, há momentos em que um sorriso – mesmo emprestado – já faz um bem danado.



Fonte: HOJE BAHIA

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