O Itamaraty ainda está avaliando se irá receber o enviado especial do governo Trump para relações com o Brasil, Darren Beattie, em reunião pedida de última hora.
O alto funcionário americano pediu, por meio da embaixada americana em Brasília, uma reunião com o Itamaraty durante sua visita oficial ao Brasil que começa na segunda-feira (16). O pedido, no entanto, foi feito de forma improvisada, por email e WhatsApp. Até o momento não houve solicitação oficial, que vem por nota verbal da embaixada.
Segundo o governo brasileiro, a solicitação, revelada pelo UOL, deu-se apenas depois de o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes publicar decisão solicitando ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, informações sobre a existência de agenda diplomática do americano, para avaliar se irá autorizar um encontro entre Beattie e o ex-presidente Jair Bolsonaro na Papudinha fora dos dias regulamentares de visitação, quartas e sábados.
A defesa de Bolsonaro havia pedido que a visita a Bolsonaro se desse entre os dias 16 e 17 de março, mas Moraes autorizou o encontro na Papudinha para o dia 18. A defesa de Bolsonaro pediu que a data fosse reconsiderada e citou compromissos diplomáticos de Beattie.
No entanto, como revelou a Folha, Beattie não tinha compromissos diplomáticos. Ele não havia pedido para se reunir com ninguém do Itamaraty, nem do Planalto –mas já havia buscado um encontro com Bolsonaro. Ele solicitou na semana passada o visto para vir ao Brasil.
Seria de praxe diplomática que, em visita oficial, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA pedisse uma reunião com alguma autoridade do Itamaraty, o órgão equivalente no Brasil. Também seria esperado que ele pedisse para se reunir com alguma autoridade da assessoria de relações internacionais do Planalto, o que não ocorreu.
No governo brasileiro, o gesto foi visto como demonstração de que o propósito da visita de Beattie é político e eleitoral. A vinda de Beattie é encarada como o capítulo inaugural da tentativa de interferência na eleição brasileira para favorecer o candidato da direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Beattie é parte de um segundo escalão do governo americano alinhado ao bolsonarismo que trabalha ativamente para solapar a visita do presidente Lula a Trump. A visita foi mencionada pelo governo brasileiro pela primeira vez em outubro do ano passado, após a trégua no tarifaço, e era esperada para 2025. Após alguns adiamentos, estava prevista para março, mas ainda não foi confirmada.
Embora o governo Lula não descarte oficialmente a visita, muitos afirmam serem baixas as chances de que ela ainda aconteça em março.
Beattie é abertamente crítico do governo Lula e de Alexandre de Moraes. Ele já chamou o ministro do STF de “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição” contra Bolsonaro, além de ser próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que o agradeceu após a imposição de sanções da Lei Magnitsky sobre Moraes.
A Folha entrou em contato com a embaixada americana, que disse que não há agenda oficial para a visita do alto funcionário americano. Sua chegada é esperada para segunda-feira (16).
Uma das justificativas para a visita de Beattie ao Brasil era participação em evento sobre minerais críticos na Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), em São Paulo, na quarta-feira (18). A Câmara, no entanto, nega que ele vá participar.
Segundo pessoas próximas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, Beattie viria ao Brasil para compromissos ligados ao processo eleitoral brasileiro. O objetivo dele seria entender o funcionamento do sistema eleitoral do país.
Segundo elas, ele teria ampla agenda com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que a partir de junho será comandado por indicados de Bolsonaro, com o ministro Kássio Nunes Marques na presidência e André Mendonça como vice.
Mas o TSE informou que não recebeu nenhum pedido de encontro por meio de sua assessoria de relações internacionais e que não há nenhuma reunião marcada.
O segundo escalão americano alinhado ao bolsonarismo é formado por Beattie e Ricardo Pita, conselheiro sênior para assuntos do hemisfério Ocidental no Departamento de Estado, além de Sebastian Gorka, na Casa Branca.
Pita esteve no Brasil em maio do ano passado e se reuniu com o senador Flávio Bolsonaro e outros bolsonaristas.
Gorka é diretor-sênior de contraterrorismo no Conselho de Segurança Nacional, além de assistente adjunto para o presidente. Ele é um dos grandes defensores do tarifaço de Trump e da ideia de designar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, ao lado de Beattie e Pita.
Como uma reportagem do UOL mostrou, os Estados Unidos devem declarar as facções CV e PCC como organizações terroristas nos próximos dias, decisão que contraria os esforços do governo brasileiro.
O governo Lula entregou uma proposta de combate ao crime organizado no fim do ano passado ao Departamento do Estado. Porém, segundo fontes próximas ao órgão, o plano foi considerado inadequado por, entre outros motivos, não conter a declaração de facções como grupos terroristas.
Na visão do governo brasileiro, o timing da insistência em anunciar a designação é sintomático das tentativas desse segundo escalão de minar as relações entre Trump e Lula.
Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO
