Portugal vai às urnas neste domingo (18/1) para escolher o próximo presidente da República em um dos momentos políticos mais sensíveis desde a redemocratização. A eleição, que definirá o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, ocorre em meio a um cenário de forte polarização interna, fragmentação partidária e instabilidade internacional.
Tal combinação transforma o pleito em um teste decisivo para a democracia portuguesa. Ao todo, 11 candidatos estão oficialmente na corrida, o maior número desde 1976.
A pulverização do eleitorado e a diversidade de perfis tornam improvável uma definição já no primeiro turno. As sondagens indicam alta probabilidade de um segundo turno, já marcado para 8 de fevereiro, caso nenhum nome alcance mais de 50% dos votos válidos.
Três candidatos — Joana Amaral Dias, José Cardoso e Ricardo Sousa — foram excluídos por irregularidades na documentação, mas permaneceram na cédula porque não houve tempo hábil para reimpressão, segundo a Comissão Nacional de Eleições (CNE). Os votos atribuídos a esses nomes serão considerados inválidos.
Dois candidatos aparecem como favoritos: André Ventura, do partido de extrema-direita Chega!, e José Seguro, do Partido Socialista.
Uma disputa fragmentada e imprevisível
- A lista de candidatos reflete um cenário político diverso e instável, reunindo figuras tradicionais da política, militares, representantes da esquerda, liberais, nomes da cultura e candidatos independentes.
- Estão na disputa André Pestana, André Ventura, António Filipe, António José Seguro, Catarina Martins, Henrique Gouveia e Melo, Humberto Correia, João Cotrim de Figueiredo, Jorge Pinto, Luís Marques Mendes e Manuel João Vieira.
- A elevada fragmentação deve dificultar a formação de maiorias claras e reforça a expectativa de um segundo turno entre dois projetos políticos antagônicos.
- Para vencer já neste domingo, o candidato precisa obter mais de metade dos votos válidos, excluídos brancos e nulos.
- Apesar de liderar as sondagens e ter presença praticamente garantida no segundo turno, o candidato de extrema-direita André Ventura enfrenta elevada rejeição e pode não conseguir se eleger presidente caso avance à fase final da disputa.
- Já o socialista José Seguro surge como favorito em um eventual segundo turno, especialmente em cenários de confronto com Ventura.
Eleição sob impacto do mundo
O contexto internacional pesa sobre a disputa. Guerras prolongadas, crises humanitárias, tensões geopolíticas e o avanço de discursos autoritários no cenário global moldam o pano de fundo da eleição.
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa alertou, no encerramento da campanha, que quem assumir à presidência encontrará um mundo “mais imprevisível” e uma Europa “mais complicada” do que aquela que enfrentou ao iniciar o mandato, em 2016.
“O mundo está mais imprevisível, a Europa está mais imprevisível. Isso torna a política mais difícil e afeta a vida das pessoas”, afirmou o presidente, destacando que, apesar da situação econômica portuguesa estar mais estável hoje, os desafios externos impõem riscos adicionais ao próximo chefe de Estado.
Democracia em teste
O crescimento da extrema-direita e do ultraliberalismo, somado à concentração de poder da direita em várias instâncias institucionais, amplia o debate sobre o papel do presidente como garantidor da Constituição de 1976, do Estado de Direito democrático e dos direitos sociais conquistados após o 25 de Abril.
Esta pode ser apenas a segunda vez, desde 1986, que Portugal terá uma eleição presidencial decidida em segundo turno — reforçando o caráter histórico do momento.
O pleito é visto como uma decisão sobre o rumo político, social e institucional do país nos próximos anos.
Quem vota e como
Estão aptos a votar 11.039.672 eleitores, número superior ao registrado nas eleições de 2021. Desse total, cerca de 1,7 milhão vivem no exterior.
O voto antecipado em mobilidade ocorreu no dia 11 de janeiro, enquanto o voto presencial no estrangeiro ocorre entre os dias 17 e 18.
Segundo a CNE, podem votar todos os cidadãos portugueses inscritos no recenseamento, além de cidadãos brasileiros residentes em Portugal com estatuto de igualdade de direitos políticos.


