Petróleo, comércio, turismo e guerra: os efeitos do conflito no Irã para o Brasil e o mundo

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Especialistas analisam como a escalada militar no Oriente Médio pode afetar petróleo, comércio global e economia brasileira. Para analista ouvido pela Sputnik, sucesso ou derrota dos EUA na região deve ser motivo de preocupação para o Brasil.

Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã ampliam a tensão no Oriente Médio e levantam preocupações sobre seus efeitos na economia global. A escalada do conflito em uma das regiões mais estratégicas para a produção e o transporte de energia pode pressionar os preços do petróleo e aumentar a volatilidade nos mercados internacionais.

Além dos reflexos diretos no setor energético, a instabilidade também pode impactar cadeias de comércio, investimentos e fluxos financeiros entre países. Para o Brasil, os desdobramentos passam tanto pelo possível aumento dos combustíveis quanto por efeitos em exportações agrícolas e no custo de insumos essenciais para o agronegócio.

A Sputnik Brasil ouviu especialistas em economia e geopolítica para entender melhor o impacto do ataque conjunto EUA-Israel ao Irã no cenário econômico internacional e como isso pode afetar a economia brasileira.

Estreito de Ormuz

Como conta Mahatma Ramos dos Santos, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP) e doutorando em sociologia econômica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o impacto imediato mais relevante do conflito é o fechamento do estreito de Ormuz, a principal rota de saída para o petróleo no Golfo Pérsico. “Por essa via circulam diariamente cerca de 20,5 milhões de barris de petróleo, volume equivalente a aproximadamente 20% do consumo global de líquidos”, explica. “O estreito também concentra cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito [GNL].”

Santos explica que essa rota marítima conecta os principais mercados consumidores da Ásia e Europa, destacando os maiores consumidores como China, Japão e Coreia do Sul. Países europeus, como conta, seriam afetados porque ampliaram a importação de GNL como alternativa ao gás russo desde o conflito na Ucrânia.

Desde o início do conflito, observa-se a elevação do preço do Brent, principal referência do mercado do petróleo internacional. O pesquisador pontua que isso se deve pelo risco de restrição súbita de exportadores do Golfo Pérsico – como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos –, que precisam de rotas marítimas para exportar seu petróleo. O Irã, quarto maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opec), produz 3,3 milhões de barris por dia.

“Se houver prolongamento do conflito, a tendência é de manutenção do petróleo em patamares mais elevados, o que pode gerar pressões inflacionárias sobre a economia global e efeitos mais estruturais no mercado internacional de petróleo e gás.”

Sobretudo, o especialista diz que uma reorganização das rotas marítimas do comércio energético pode acontecer. Porém, esse movimento tende a vir acompanhado de custos mais altos. “Esse processo, no entanto, costuma vir acompanhado de aumento nos custos logísticos, especialmente em função do encarecimento dos seguros marítimos e do frete.”

Segundo ele, eventuais riscos à navegação no Oriente Médio podem levar países importadores a buscar fornecedores alternativos em outras regiões, o que reorganiza fluxos de transporte de petróleo e derivados. Ele acrescenta que produtores da própria região também podem tentar escoar a produção por caminhos alternativos, caso haja restrições prolongadas à navegação em pontos estratégicos, como o estreito de Ormuz.

Santos ressalta ainda que os efeitos da instabilidade se estendem ao setor aéreo: companhias tendem a evitar sobrevoar áreas de conflito, desviando rotas para contornar o espaço aéreo de países diretamente envolvidos. Esses trajetos mais longos aumentam o tempo de voo, o consumo de combustível e os custos operacionais, o que pode refletir tanto no preço das passagens quanto na logística do transporte internacional.

Porém, o conflito no Irã também afeta o plano econômico de países e blocos, como a China e o BRICS. Na visão de Carla Beni, professora de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e conselheira do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), uma escalada poderia ter efeitos mais amplos em dificultar projetos estratégicos – a exemplo da Iniciativa Cinturão e Rota, um projeto de consolidação do comércio chinês com portos de todo o mundo –, além de pressionar a articulação do BRICS.

“O Irã acabou de entrar como convidado, então também enfraquece o discurso do BRICS, porque justamente há todo um conflito em torno do país”, explica, lembrando também que interesses econômicos ligados à indústria bélica dos EUA estão envolvidos.

A economista observa ainda que o cenário também tem implicações políticas internas para Donald Trump. Segundo ela, uma escalada do conflito pode pressionar os preços do petróleo e alimentar a inflação em um momento sensível, com a proximidade das eleições de meio de mandato. “Está se dando um poder quase que mitológico para o chefe do Executivo, mas o Congresso tem que aprovar toda essa despesa que, inclusive, não está aprovando. E a população estadunidense não apoia essa guerra.”

Beni alerta que o risco dos Estados Unidos seria não só Trump perder seu capital político, mas fazer com que o país perca seus investidores dos países árabes; Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita se comprometeram a investir mais de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,2 trilhões) cada nos EUA, focando principalmente em inteligência artificial, defesa e infraestrutura.

O Irã fez ataques retaliatórios em bases norte-americanas em países árabes, chegando a emitir um pedido de desculpas após os ataques. A avaliação de analistas é de que a estratégia iraniana é pressionar esses países a forçarem Washington em uma negociação de trégua ou um tratado de paz. Beni vê que a instabilidade na região pode manchar a imagem de lugares associados ao turismo de luxo, como Dubai e outros símbolos de riqueza no Oriente Médio.

Se o conflito prolongar, segundo ela, a perspectiva é de que investimentos e rotas comerciais ligadas a essas cidades mudem. A cidade de Dubai, que recebe entre 17 e 18 milhões de turistas por ano, arrecadando US$ 60 bilhões (cerca de R$ 314 bilhões), além de abrigar milionários e bilionários do mundo todo, poderia ser uma das mais afetadas.

Pax americana

“O conflito pode ter um efeito além de sua duração, pois quebra a ilusão de segurança que havia sido estabelecida desde a Guerra do Golfo em 1991, logo após a Guerra Fria”, diz Gabriel Mathias Soares, doutor em história social, mestre em estudos árabes pela Universidade de São Paulo (USP) e Global Fellow na Universidade Habib em Karachi, Paquistão.

Soares pontua que, desde os anos 1990, consolidou-se na região uma espécie de “Pax americana”, marcada pela percepção de estabilidade entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), mesmo após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos nos anos 2000.

Agora, afirma o pesquisador, essa sensação de segurança foi abalada — e, mesmo uma eventual queda da República Islâmica do Irã em favor de um governo aliado a Estados Unidos e Israel, pode não restaurar as mesmas garantias de estabilidade que existiam antes.

Para o especialista, ações anteriores dos Estados Unidos, como a intervenção militar na Venezuela, teriam sido tomadas antecipando riscos associados a um eventual confronto com o Irã, incluindo a possibilidade de fechamento do estreito de Ormuz.

“A proximidade entre os eventos levanta dúvidas a respeito de quão significativo ou premeditado teria sido tal planejamento, já que a produção na Venezuela não teria como compensar essa imensa quantidade de petróleo, ainda mais por ser de um tipo mais denso que o do Golfo Pérsico”, afirma. “De qualquer modo, os EUA têm reservas estratégicas e produção própria, o que não é o caso da Europa.”

Ainda, Soares pontua que o maior afetado seria a China, embora ressaltando que esta já teria se preparado aumentando suas reservas estratégicas e diversificando suas relações de petróleo com a Rússia, por exemplo. Sobre o Brasil, ele acredita que o país também seria afetado, porém não da mesma forma que países árabes ou a Europa.

Para o especialista, na tentativa de Washington de restabelecer sua hegemonia, Trump poderia incluir o Brasil nesse escopo geoestratégico caso seus planos sejam um domínio sobre a região latino-americana.

“Tanto o sucesso ou a derrota podem afetar o Brasil, já que o primeiro caso fortaleceria a política agressiva dos EUA e o segundo poderia fazer eles se concentrarem mais na região que consideram historicamente o seu quintal, isto é, a América Latina.”

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Jorge Mortean, doutor em geografia política pela USP e mestre em estudos regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã, também vê que os ataques retaliatórios a bases norte-americanas em países árabes podem forçar esses países a repensar suas alianças com os EUA.

Segundo ele, a retaliação contra alvos localizados em países que hospedam instalações militares de potências estrangeiras levanta um debate sobre responsabilidades no direito internacional. “Não há uma definição clara sobre a responsabilidade de um país que abriga bases militares de outra soberania em seu território”, afirma. Na avaliação do especialista, a estratégia iraniana busca justamente expor essa corresponsabilidade política dos Estados que permitem a presença de forças militares estrangeiras.

Para ele, o atual conflito reacende um debate mais amplo sobre o próprio conceito de alianças militares e os riscos para países que hospedam bases estrangeiras em seus territórios. Os Estados Unidos possuem cerca de 750 a mais de 800 instalações ativas em cerca de 51 a 80 países e territórios.

Leandro Dalalibera Fonseca, mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador de temas de segurança internacional, avalia que quando um ator externo ataca simultaneamente diferentes países, rivalidades históricas tendem a ser relativizadas em nome de uma ameaça comum.

Na prática, afirma o pesquisador, isso pode aproximar potências regionais como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que vinham enfrentando tensões e disputas indiretas em cenários como o conflito no Sudão. “É aquela lógica de que o inimigo externo une a tropa”, resume. Para ele, a pressão militar iraniana pode empurrar os países do Golfo para uma coordenação maior entre si e até para um alinhamento mais forte com Washington.

Impactos no Brasil

Beni afirma que o Brasil, apesar de importar muito de seus combustíveis como diesel e gasolina, não seria afetado pelo fechamento de Ormuz, já que suas importações não são dessa localidade, e sim da Rússia e dos Estados Unidos. No entanto, a economista faz a ressalva de que a alta no preço do petróleo ainda complica.

Segundo ela, uma eventual alta do petróleo no mercado internacional pode pressionar os preços da gasolina, embora esse impacto dependa da capacidade da Petrobras de amortecer a variação — especialmente em um contexto de ano eleitoral, quando historicamente há maior cautela com reajustes.

Além disso, Beni aponta mais uma questão importante: o agronegócio. O Irã é o maior comprador de milho brasileiro, principalmente vindo dos estados de Mato Grosso e Goiás. Do outro lado, os iranianos estão entre os principais fornecedores de insumos para a agricultura, como a ureia. “Eu colocaria também esse peso na balança e que tipo de políticas públicas o governo no Brasil poderia fazer ou novas aberturas de mercado para justamente diminuir essa dependência.”

Já Santos destaca que um eventual choque no preço do petróleo pode pressionar a inflação no Brasil e influenciar as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil sobre a taxa de juros.

Ele observa, no entanto, que a Petrobras tem sinalizado cautela ao afirmar que não pretende repassar imediatamente ao mercado interno a volatilidade das cotações internacionais, aguardando maior clareza sobre a duração da alta do petróleo. Nesse cenário, ele considera possível que a reunião de março do Copom ainda registre algum recuo na taxa básica de juros.

Por outro lado, caso o conflito envolvendo o Irã se prolongue e resulte em aumento dos combustíveis no mercado doméstico, o Banco Central poderá adotar uma postura mais cautelosa nas reuniões seguintes, retardando cortes ou até mantendo a taxa estável. Para o especialista, o contexto reforça o papel

estratégico da Petrobras como instrumento de política energética capaz de amortecer, ao menos no curto prazo, os impactos de choques externos sobre a inflação brasileira.



Fonte: HOJE BAHIA

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