O litoral paulista opera sob estresse após acumulados que superaram 200 milímetros em Ubatuba, volume suficiente para saturar encostas, provocar deslizamentos e levar o município a decretar Situação de Emergência. O episódio não é apenas meteorológico. Ele revela a interdependência entre risco climático, infraestrutura de mobilidade e atividade econômica em uma faixa costeira onde turismo, comércio e serviços dependem de acesso contínuo pelas rodovias de serra.
A sequência de chuvas intensas elevou o risco geotécnico em áreas já vulneráveis. Com o solo encharcado, mesmo precipitações adicionais de menor volume podem funcionar como gatilho para novos escorregamentos. Esse é o ponto crítico nas próximas 48 a 72 horas: o perigo deixa de estar apenas no volume que cai do céu e passa a residir na estabilidade do terreno.
No Litoral Norte, deslizamentos e bloqueios impactaram a Rodovia dos Tamoios, com restrições operacionais na Serra Antiga por questões de segurança. A SP-125, ligação estratégica entre o Vale do Paraíba e Ubatuba, também registrou interdições por queda de barreira. Cada interrupção amplia o custo logístico regional, encarece fretes, prolonga deslocamentos e reduz previsibilidade para cadeias de abastecimento e para o setor turístico, altamente sensível a cancelamentos de última hora.
Na Baixada Santista e no Litoral Sul, operações de resgate e suspensão de aulas evidenciaram o impacto social do evento. Para além dos danos imediatos às residências afetadas, há efeito indireto sobre a renda local, sobretudo em municípios cuja economia é fortemente dependente de serviços sazonais.
Em Peruíbe, no Litoral Sul, a Defesa Civil realizou dezenas de resgates após alagamentos em bairros vulneráveis, enquanto o município suspendeu aulas e mobilizou estruturas de acolhimento temporário. A ocorrência reforça que o impacto das chuvas não se restringe às áreas de encosta da Serra do Mar. Em cidades com relevo mais plano, o gargalo passa a ser drenagem urbana e ocupação de áreas sujeitas a inundação, com reflexo direto sobre pequenos comércios, serviços locais e arrecadação municipal em períodos de alta temporada.
Há ainda o componente sanitário. Após chuvas intensas, a recomendação técnica é evitar o banho de mar nas primeiras 24 horas, devido ao carreamento de contaminantes para a faixa costeira. Em períodos de alta ocupação, isso representa perda potencial de receita para pequenos negócios e amplia a volatilidade da atividade turística.
O episódio reforça uma tendência estrutural. Eventos extremos deixaram de ser exceção estatística e passaram a integrar o cálculo de risco regional. Em um território marcado por relevo escarpado e ocupação urbana densa, a resiliência de encostas, drenagem urbana e corredores logísticos tornou-se variável econômica estratégica. O custo da prevenção, embora elevado, precisa ser comparado ao custo recorrente das paralisações, das reconstruções e da perda de confiança logística.
A evolução dos alertas meteorológicos, o status operacional das rodovias e eventuais reconhecimentos adicionais de emergência serão determinantes para medir a extensão do impacto nas próximas horas. O que está em jogo não é apenas a intensidade da chuva, mas a capacidade de absorção de choque de uma das regiões mais relevantes do estado de São Paulo em termos turísticos e logísticos.
Fonte: CNN BRASIL
