O recuo do governo de Donald Trump na condução da política migratória ganhou um novo capítulo após a morte de manifestantes em operações federais do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), em Minnesota. Diante da escalada da crise política e social, a Casa Branca passou a sinalizar mudanças práticas na atuação dos agentes no estado, ao mesmo tempo em que enfrenta resistência no Congresso para aprovar o financiamento da área.
Em coletiva de imprensa em Minneapolis, nessa quinta-feira (29/1), o chamado “czar da fronteira” do governo Trump, Tom Homan, confirmou que o ICE e a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) trabalham em um plano para reduzir o número de agentes em campo na região metropolitana da cidade.
Segundo Homan, a estratégia prevê menos ações ostensivas nas ruas e maior concentração das operações dentro de cadeias e prisões, o que, na avaliação do governo, tornaria a fiscalização mais segura e eficiente.
“Mais agentes na prisão significa menos agentes nas ruas. Essa é uma cooperação de bom senso, que nos permite reduzir o número de pessoas que temos aqui”, afirmou.
Reconhecimento de falhas
Durante a coletiva, o representante da Casa Branca reconheceu falhas na condução das operações federais e admitiu a necessidade de correções internas — algo incomum na retórica do governo Trump sobre imigração.
“O presidente Trump e eu reconhecemos que certas melhorias poderiam e deveriam ser feitas. É exatamente isso o que estou fazendo aqui”, declarou.
O “czar” disse que reuniões com gestores do ICE, do CBP e com autoridades estaduais e locais serviram para alinhar expectativas e redefinir procedimentos. Segundo ele, as futuras operações serão mais direcionadas, com foco claro nos alvos.
“Quando formos às ruas, saberemos exatamente quem estamos procurando”, afirmou, acrescentando que a missão “vai melhorar” com as mudanças.
Autoridades federais indicam que novas diretrizes estão em avaliação, incluindo a orientação para evitar confrontos com manifestantes e concentrar prisões em imigrantes com condenações ou acusações criminais.
A medida busca responder às críticas sobre táticas consideradas amplas e severas demais.
Crise após mortes em Minneapolis
- A tensão política se intensificou após a morte de dois manifestantes em ações envolvendo agentes federais em Minneapolis.
- Um dos casos mais emblemáticos foi o assassinato do cidadão norte-americano Alex Pretti, que provocou afastamentos internos e ampliou as críticas à condução das operações.
- Dois agentes do ICE foram colocados em licença administrativa, enquanto o então chefe da operação local, Gregory Bovino, também foi afastado.
- Bovino havia afirmado, dias antes, que “tudo o que fazemos é legal, ético e moral”, declaração que passou a ser vista como símbolo da postura rígida do governo.
- Sem citar nomes, Homan indicou que desvios de conduta não serão tolerados: “Não quero ouvir que tudo o que foi feito aqui foi perfeito. Agentes que não agirem com profissionalismo serão punidos. A operação será mais segura e dentro dos procedimentos.”
Pressão política
O recuo operacional ocorre em meio a um embate político em Washington. Também na quinta, o Senado dos Estados Unidos bloqueou um amplo pacote de gastos que inclui o financiamento do controle de imigração, elevando a pressão sobre o governo e aproximando o país de um novo shutdown.
Em uma votação-teste apertada, o placar foi de 45 votos a 55 contra o avanço da proposta. Todos os senadores democratas votaram para barrar o texto, exigindo mudanças nas políticas do Departamento de Segurança Interna (DHS), que abriga o ICE.
Republicanos conservadores se uniram à oposição, impedindo o avanço do projeto.
Os democratas defendem que o orçamento do DHS seja separado do restante do pacote para permitir uma renegociação específica das diretrizes migratórias.
Entre as exigências estão a obrigação de que agentes do ICE se identifiquem, retirem máscaras, utilizem câmeras corporais e atuem apenas com mandados judiciais.
O ajuste de rota não se limita a Minnesota. No Maine, estado situado no extremo nordeste dos EUA, a senadora republicana Susan Collins anunciou que o ICE encerrou repentinamente uma operação intensificada no estado.
O movimento reforça a avaliação de que o governo Trump passou a recalcular o custo político da ofensiva migratória, especialmente em estados-chave para o controle do Senado.



