A guerra da Ucrânia está prestes a completar quatro anos e entrou, na última semana, em mais um capítulo histórico. Pela primeira vez desde o início do conflito em larga escala, delegações da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia sentaram-se à mesma mesa para discutir um possível cessar-fogo duradouro.
As conversas, realizadas nos Emirados Árabes Unidos, ocorrem em meio a uma ofensiva diplomática liderada por Washington, que assumiu o protagonismo na tentativa de encerrar a guerra. Apesar do simbolismo do encontro trilateral, negociadores e líderes envolvidos reconhecem que o processo segue travado em um ponto central: a disputa territorial no leste ucraniano.
E, segundo analistas ouvidos pelo Metrópoles, sem o reconhecimento dessas conquistas, Moscou dificilmente aceitará um acordo de paz duradouro.
“Uma única questão”
Territórios como linha vermelha
Atualmente, a Rússia ocupa cerca de 20% do território internacionalmente reconhecido como parte da Ucrânia, incluindo quase toda a região de Luhansk e áreas de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia.
Moscou exige que Kiev abandone oficialmente as reivindicações sobre essas regiões, anexadas pela Rússia em 2022 após referendos não reconhecidos pela comunidade internacional.
O governo ucraniano rejeita essa condição. Volodymyr Zelensky já admitiu, no entanto, a possibilidade de discutir concessões por meio de um referendo interno, mas descarta reconhecer formalmente os territórios como parte da Rússia.
Em Abu Dhabi, Zelensky adotou um tom cauteloso ao comentar o início das conversas trilaterais. “Veremos como a conversa se desenrola, quais serão os resultados. Ainda é muito cedo para conclusões”, afirmou.
Do lado russo, a postura permanece rígida. O assessor do Kremlin, Yury Ushakov, afirmou que não há base para um acordo de longo prazo sem a resolução da questão territorial e reiterou que Moscou continuará perseguindo seus objetivos “no campo de batalha” enquanto não houver concessões concretas.
Pressão sobre Kiev
Para analistas, o novo formato de negociação evidencia o desequilíbrio de forças entre os atores envolvidos. Em entrevista ao Metrópoles, o professor de História do Mackenzie Victor Missiato avalia que o simples fato de o diálogo trilateral ter sido estabelecido já representa uma mudança relevante no conflito.
Segundo o professor, a fragilidade econômica e militar acumulada pela Ucrânia ao longo da guerra enfraquece sua posição nas negociações.
“O poder de barganha dos Estados Unidos em relação ao envio de armamentos e financiamentos vem diminuindo. A Ucrânia não conseguiu reaver os territórios como se esperava, e isso enfraquece sua capacidade de manter ou avançar em suas reivindicações, especialmente as territoriais”, explica.
Missiato destaca ainda que a pressão exercida por Washington sobre Kiev atende também a interesses estratégicos norte-americanos mais amplos.
“Há um interesse claro dos Estados Unidos em restabelecer pontes de negociação com a Rússia, inclusive econômicas. Quanto mais pressão sobre a Ucrânia, que é o elo mais fraco, mais os EUA visualizam seus próprios interesses sendo contemplados com o fim da guerra”, avalia.
Um modelo imposto pelos mais fortes
Na mesma linha, o professor Alberto Moral aponta que o formato trilateral tende a consolidar um modelo de negociação assimétrico, no qual Rússia e Estados Unidos impõem os termos à Ucrânia.
“Esse modelo consolida uma negociação em que Rússia e Estados Unidos, por serem mais fortes, tentam impor uma solução à Ucrânia. Isso fica evidente, inclusive, pela forma como a Rússia participa das negociações, com uma delegação predominantemente militar”, afirma.
Para Moral, Moscou busca congelar o conflito a partir das posições já conquistadas.
“A Rússia pretende consolidar o controle sobre Luhansk e Donbass, especialmente Donetsk e Luhansk. Não há intenção de devolver esses territórios. O objetivo é estabelecer um congelamento do status quo e negociar a partir de uma posição de força”, diz.
Entre a diplomacia e a dissuasão
Enquanto as negociações avançam lentamente, o cenário internacional segue marcado por demonstrações de força. Pouco antes do encontro em Abu Dhabi, a Rússia anunciou um voo de patrulha de bombardeiros de longo alcance sobre o Mar Báltico, movimento interpretado como sinalização militar em meio à intensificação diplomática.
Para Victor Missiato, esse comportamento reflete uma mudança mais ampla na geopolítica global.
“Vivemos um momento em que o poder militar e as zonas de influência voltam a ganhar centralidade, em detrimento do multilateralismo. A Rússia tem uma economia fragilizada, mas um poder militar muito superior à sua capacidade socioeconômica, e isso se reflete na lógica das negociações”, analisa.




