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Fim da guerra da Ucrânia depende do jogo de forças entre EUA e Rússia

Mundo


A guerra da Ucrânia está prestes a completar quatro anos e entrou, na última semana, em mais um capítulo histórico. Pela primeira vez desde o início do conflito em larga escala, delegações da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia sentaram-se à mesma mesa para discutir um possível cessar-fogo duradouro.

O gesto, ainda que cercado de cautela, marca uma inflexão diplomática em um conflito que, até aqui, se sustentou mais pela lógica militar do que pela negociação política.

As conversas, realizadas nos Emirados Árabes Unidos, ocorrem em meio a uma ofensiva diplomática liderada por Washington, que assumiu o protagonismo na tentativa de encerrar a guerra. Apesar do simbolismo do encontro trilateral, negociadores e líderes envolvidos reconhecem que o processo segue travado em um ponto central: a disputa territorial no leste ucraniano.

E, segundo analistas ouvidos pelo Metrópoles, sem o reconhecimento dessas conquistas, Moscou dificilmente aceitará um acordo de paz duradouro.

Putin e Trump
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Putin e Trump

Andrew Harnik/Getty Images

Putin e Zelensky
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Putin e Zelensky

Arte/Metrópoles

O presidente russo, Vladimir Putin, e o enviado especial do presidente dos EUA, Donald Trump, Steve Witkoff, se cumprimentam durante reunião no Kremlin, em Moscou, em 6 de agosto de 2025
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O presidente russo, Vladimir Putin, e o enviado especial do presidente dos EUA, Donald Trump, Steve Witkoff, se cumprimentam durante reunião no Kremlin, em Moscou, em 6 de agosto de 2025

Kremlin Press Office / Handout/Anadolu via Getty Images

Fim da guerra da Ucrânia depende do jogo de forças entre EUA e Rússia - imagem 4
4 de 5Tom Nicholson/Getty Images
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Zelensky e Trump

Reprodução/X


“Uma única questão”


Territórios como linha vermelha

Atualmente, a Rússia ocupa cerca de 20% do território internacionalmente reconhecido como parte da Ucrânia, incluindo quase toda a região de Luhansk e áreas de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia.

Moscou exige que Kiev abandone oficialmente as reivindicações sobre essas regiões, anexadas pela Rússia em 2022 após referendos não reconhecidos pela comunidade internacional.

O governo ucraniano rejeita essa condição. Volodymyr Zelensky já admitiu, no entanto, a possibilidade de discutir concessões por meio de um referendo interno, mas descarta reconhecer formalmente os territórios como parte da Rússia.

Em Abu Dhabi, Zelensky adotou um tom cauteloso ao comentar o início das conversas trilaterais. “Veremos como a conversa se desenrola, quais serão os resultados. Ainda é muito cedo para conclusões”, afirmou.

Do lado russo, a postura permanece rígida. O assessor do Kremlin, Yury Ushakov, afirmou que não há base para um acordo de longo prazo sem a resolução da questão territorial e reiterou que Moscou continuará perseguindo seus objetivos “no campo de batalha” enquanto não houver concessões concretas.

Pressão sobre Kiev

Para analistas, o novo formato de negociação evidencia o desequilíbrio de forças entre os atores envolvidos. Em entrevista ao Metrópoles, o professor de História do Mackenzie Victor Missiato avalia que o simples fato de o diálogo trilateral ter sido estabelecido já representa uma mudança relevante no conflito.

“Isso é uma sinalização prática de que existe um canal de diálogo e que o conflito pode estar caminhando para seus capítulos finais”, afirma.

Segundo o professor, a fragilidade econômica e militar acumulada pela Ucrânia ao longo da guerra enfraquece sua posição nas negociações.

“O poder de barganha dos Estados Unidos em relação ao envio de armamentos e financiamentos vem diminuindo. A Ucrânia não conseguiu reaver os territórios como se esperava, e isso enfraquece sua capacidade de manter ou avançar em suas reivindicações, especialmente as territoriais”, explica.

Missiato destaca ainda que a pressão exercida por Washington sobre Kiev atende também a interesses estratégicos norte-americanos mais amplos.

“Há um interesse claro dos Estados Unidos em restabelecer pontes de negociação com a Rússia, inclusive econômicas. Quanto mais pressão sobre a Ucrânia, que é o elo mais fraco, mais os EUA visualizam seus próprios interesses sendo contemplados com o fim da guerra”, avalia.

Um modelo imposto pelos mais fortes

Na mesma linha, o professor Alberto Moral aponta que o formato trilateral tende a consolidar um modelo de negociação assimétrico, no qual Rússia e Estados Unidos impõem os termos à Ucrânia.

“Esse modelo consolida uma negociação em que Rússia e Estados Unidos, por serem mais fortes, tentam impor uma solução à Ucrânia. Isso fica evidente, inclusive, pela forma como a Rússia participa das negociações, com uma delegação predominantemente militar”, afirma.

Para Moral, Moscou busca congelar o conflito a partir das posições já conquistadas.

“A Rússia pretende consolidar o controle sobre Luhansk e Donbass, especialmente Donetsk e Luhansk. Não há intenção de devolver esses territórios. O objetivo é estabelecer um congelamento do status quo e negociar a partir de uma posição de força”, diz.

Entre a diplomacia e a dissuasão

Enquanto as negociações avançam lentamente, o cenário internacional segue marcado por demonstrações de força. Pouco antes do encontro em Abu Dhabi, a Rússia anunciou um voo de patrulha de bombardeiros de longo alcance sobre o Mar Báltico, movimento interpretado como sinalização militar em meio à intensificação diplomática.

Para Victor Missiato, esse comportamento reflete uma mudança mais ampla na geopolítica global.

“Vivemos um momento em que o poder militar e as zonas de influência voltam a ganhar centralidade, em detrimento do multilateralismo. A Rússia tem uma economia fragilizada, mas um poder militar muito superior à sua capacidade socioeconômica, e isso se reflete na lógica das negociações”, analisa.



Fonte Metrópoles

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