Discurso de Trump trata de “Era de Ouro” que americano não vive | Blogs | CNN Brasil

Política

Por quase duas horas — no discurso mais longo da história recente do Congresso americano — Donald Trump transformou o Capitólio numa extensa demonstração de vaidade.

O Estado da União de quarta-feira (24) foi, antes de tudo, um documento de autoafirmação: um presidente que chega ao segundo ano de seu segundo mandato com a popularidade em queda e o eleitorado dividido, mas com a convicção de que a força da narrativa pode, mais uma vez, inclinar a balança a seu favor.

A moldura escolhida é reveladora: a “golden age of America” (Era de Ouro dos Estados Unidos, em tradução livre).

A expressão ecoa a Gilded Age do final do século XIX, o período de industrialização acelerada, tarifas protecionistas e formação de grandes conglomerados que também ficou marcado por desigualdade extrema e tensões sociais profundas. Mark Twain cunhou o termo como ironia: a superfície dourada escondia o metal podre.

Trump enfatiza a força, a soberania econômica e o poder nacional, mas não suas contradições. A escolha retórica é deliberada e diz algo sobre o projeto: uma América que se quer grande antes de se querer necessariamente ser justa.

O dispositivo estrutural do discurso foi o mesmo de sempre: a herança maldita. O que está mal foi legado pelo antecessor; o que vai bem é conquista do presente.

Trump recitou uma lista de indicadores com segurança: a bolsa bateu 53 recordes históricos desde a eleição, o desemprego está baixo, a inflação recuou, o preço do combustível caiu, mais norte-americanos estão empregados do que em qualquer momento da história do país. Os números não são inteiramente falsos, mas são seletivos.

A economia cresceu 2,2% em 2025, menos do que em qualquer ano do governo anterior. A inflação de fato arrefeceu, mas o custo de vida acumulado ainda pesa: moradia, eletricidade e mantimentos seguem mais caros.

A bolsa subiu, mas os 10% mais ricos detêm 87% de toda a riqueza acionária, enquanto metade dos norte-americanos não possui nenhuma ação. O crescimento existe, mas seus benefícios estão longe de ser distribuídos de forma uniforme.

Trump também defendeu as tarifas como instrumento de soberania e reciprocidade comercial, chegando a sugerir que poderiam um dia substituir o imposto de renda, uma afirmação que a aritmética fiscal torna implausível, dado que o governo arrecada cerca de 3 trilhões de dólares por ano com a tributação da renda.

O que esteve ausente foi talvez mais significativo do que o que foi dito: uma pesquisa NPR/PBS/Marist divulgada horas antes mostrou que seis em cada dez americanos acreditam que o país está pior do que há um ano.

Trump não reconheceu essa percepção. Não houve momento de empatia com quem ainda sente o peso do custo de vida, uma lacuna relevante para um presidente que enfrenta um ano eleitoral de meio de mandato com aprovação negativa.

No plano simbólico, Trump abriu a noite recebendo a seleção americana de hóquei masculino, campeã olímpica, e ao longo da noite apresentou ao Congresso uma série de convidados cuidadosamente selecionados: mães de vítimas de crimes cometidos por imigrantes, uma mulher reencontrada com o tio sequestrado pelo regime de Maduro, atletas e heróis cotidianos.

É uma linguagem política que Trump domina com eficácia: o herói coletivo da nação encarnado em histórias individuais que geram comoção antes da análise.

O lado mais áspero da noite ficou por conta das galerias: o deputado Al Green foi removido do plenário por segurar uma placa com os dizeres “Black people aren’t apes” (pessoas negras não são macacos, em português), referência a um vídeo publicado pelo próprio presidente que retratava Barack e Michelle Obama de forma desumanizante, cena que sintetiza, independentemente de qualquer julgamento, o grau de deterioração do clima político nos Estados Unidos.

A imigração foi, por anos, o ativo político mais sólido de Trump, e o discurso reativou o repertório conhecido: cidades sobrecarregadas por imigrantes, crimes cometidos por estrangeiros em situação irregular, a “libertação” da América por meio do controle da fronteira.

Os dados de fato mostram queda expressiva nos cruzamentos. Mas a narrativa encontra fricção em episódios que o discurso não mencionou: em janeiro, agentes federais mataram dois cidadãos norte-americanos no Minnesota durante operações de deportação, gerando comoção nacional.

As deportações em massa, aprovadas em abstrato por parcela significativa do eleitorado, tornaram-se mais controversas à medida que os casos concretos ganharam visibilidade.

A aprovação de Trump no tema, que já foi seu maior diferencial eleitoral, entrou em território negativo nas pesquisas recentes. O que era promessa de campanha virou política de governo e política de governo carrega o peso de suas consequências.

Na política externa, Trump foi deliberadamente conciso. Celebrou o acordo de libertação dos reféns israelenses em Gaza como resultado de sua diplomacia e adotou tom assertivo sobre o Irã — “nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo tenha uma arma nuclear” –, sem esclarecer o que o acúmulo de ativos militares norte-americanos na região efetivamente sinaliza.

A grande ausência foi a Ucrânia, que sequer foi mencionada como questão estratégica. Para os aliados europeus que acompanharam o discurso, o silêncio tem significado próprio: confirma uma orientação dos Estados Unidos voltada prioritariamente para dentro, em que os compromissos transatlânticos tradicionais ocupam papel secundário.

Com uma hora e quarenta e oito minutos, Trump estabeleceu novo recorde de duração para um discurso desse tipo, mas extensão não é equivalente a substância.

A agenda legislativa apresentada foi modesta, o que é coerente com um estilo de governo que privilegia o decreto executivo em detrimento de negociações mais complexas com o Congresso.

O Estado da União de 2026 cumpriu sua função ritual, mas não resolveu a tensão central que o presidente enfrenta: o país que ele descreve — próspero, seguro, em ascensão — não corresponde à experiência cotidiana de uma maioria de norte-americanos que diz sentir o peso dos preços e ver o futuro com menos otimismo do que há um ano.

Essa distância entre a narrativa presidencial e a percepção do eleitorado é, talvez, o dado político mais importante que o discurso produziu — não pelo que disse, mas pelo que escolheu ignorar.

Fonte: CNN BRASIL

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