Outro dia, caminhando pela feira de Mar Grande, entre um abacaxi e uma melancia – que claramente sabia mais da vida do que eu – me dei conta que o mundo tinha virado uma vitrine.
Não uma vitrine qualquer. Uma daquelas de shopping, com luz branca, música ambiente e seguranças na porta lembrando, com delicadeza institucional, que olhar é permitido, mas pertencer já é outro assunto.
O curioso é que a feira sempre foi um lugar democrático. O tomate não pergunta sua renda antes de amadurecer. A farinha não exige comprovante de residência. Mas, mesmo ali, entre barracas, cachaça e risadas, alguém puxou do bolso um celular reluzente, desses que custam mais do que a dignidade parcelada em doze vezes sem juros (ou com, dependendo do banco).
E foi aí que me dei conta: o desejo não é mais um sentimento. É uma obrigação social.
Zygmunt Bauman*, se passeasse por ali, talvez comprasse um coco (ou um caju) e diria, com aquele ar de quem entende das coisas invisíveis, que a gente deixou de ser cidadão para virar cliente. E cliente, meu amigo, não pode falhar. Tem que querer sempre. Mesmo quando não pode. Aliás, principalmente quando não pode.
Porque o drama não é desejar. O drama é desejar olhando – todos os dias – para quem já tem. E não apenas tem: exibe, filtra, ilumina e posta. O mundo virou uma grande novela onde ninguém mais quer ser figurante, mas o roteiro só distribui papel principal para quem tem cartão com limite. Para os demais, o papel é higiênico.
Abro o Instagram e lá está: alguém tomando um café que custa o valor de uma semana de transporte público. No TikTok, outro ensina como “ficar rico antes dos 30” – geralmente começando com a pequena dica de já ter nascido em circunstâncias favoráveis. A profissão mais desejada? Herdeiro.
E a gente? A gente vai assistindo. Só que assistir cansa. E, às vezes, revolta.
Não é sobre o celular. Nunca foi. É sobre o que ele promete: pertencimento. Respeito. Existência. É como se o objeto dissesse: “comigo, você é alguém”. Sem ele, você vira paisagem. E o Brasil, convenhamos, já tem paisagem demais sendo ignorada.
Émile Durkheim** talvez chamasse isso de desajuste. Robert K. Merton*** explicaria que ensinaram a gente a sonhar alto, mas esqueceram de construir a escada. Resultado: tem gente tentando subir pelo elevador errado – e às vezes quebrando a porta no caminho.
E aí vem o susto coletivo: “Nossa, quanta violência!”
Como se ela tivesse surgido do nada, igual promoção relâmpago.
Mas não. A violência, muitas vezes, é o grito de quem foi convidado para a festa do consumo, mas barrado na porta. É o sujeito dizendo, do jeito mais torto possível: “eu também quero existir”.
Não justifica. Mas explica.
E talvez a gente precise, com alguma urgência, parar de confundir explicação com desculpa – porque são coisas diferentes, embora o debate público insista em tratá-las como sinônimos briguentos.
No fim da feira, comprei um cacho de banana maçã, que em casa de revelou “da prata”. A mais simples, a mais honesta. Não vinha com status, nem com câmera de alta resolução, nem com promessa de felicidade instantânea. Mas alimentava.
E pensei, enquanto caminhava de volta: talvez o problema do mundo seja esse – a gente trocou o que alimenta pelo que aparece.
E, nessa troca, tem gente com fome.
De pão, de respeito e de lugar no mundo.
* A teoria de Zygmunt Bauman (1925-2017) define a sociedade contemporânea como “modernidade líquida”, marcada pela fluidez, fragilidade dos laços humanos e efemeridade das relações. Nela, instituições, identidades e amores são desregulamentados, focando no individualismo, consumo e descarte rápido, gerando insegurança e ansiedade
** Émile Durkheim definiu fatos sociais como o objeto central de estudo da sociologia, caracterizados por serem maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo, coercitivos e gerais. Essas normas e valores sociais existem independentemente da vontade individual e moldam o comportamento coletivo, devendo ser analisados como “coisas”
*** Merton, em sua maior parte, aceitou o conceito do Durkheim de anomia e seu significado de um estado sem normas da sociedade. No entanto, ele então pegou o conceito em outra direção. Merton viu uma disjunção entre metas culturalmente elaborados e forma aceitável de alcançar os fins desejados, o que leva a “tensão”.
Fonte: HOJE BAHIA
