É inegável que os recentes ataques e contra-ataques aumentaram a temperatura retórica e militar no sudoeste asiático. O temor de uma conflagração maior, que poderia ser o estopim para um conflito de proporções globais, é legítimo. No entanto, defender que “estamos à beira da terceira guerra mundial” talvez seja uma conclusão precipitada. Há, sim, espaço para uma visão que podemos chamar de “otimismo prudente” ou realismo histórico, baseado em alguns pilares.
A dissuasão nuclear e o medo da escalada formam, paradoxalmente, a maior garantia da não-ocorrência de uma guerra mundial. Potências como Estados Unidos, Rússia e China, e mesmo potências regionais nucleares como Israel, sabem que um conflito aberto e generalizado carrega o risco inaceitável de uma troca de ataques nucleares. A história da Guerra Fria nos mostrou que, por mais tensas que fossem as crises (como a dos mísseis de Cuba), o medo da “destruição mútua assegurada” impôs um limite tácito. A racionalidade, por mais fria que seja, tende a prevalecer quando o custo é a aniquilação.
Os conflitos modernos, especialmente os assimétricos, tendem a tornarem-se espetáculos midiáticos com profundas ramificações internas para os países envolvidos. Ataques cirúrgicos e retaliações calculadas são, muitas vezes, uma forma de demonstrar força para a própria população, sem o desejo real de uma guerra de exaustão. A ofensiva atual pode ser vista como mais um capítulo nesse jogo de xadrez de “ação e reação controlada”, onde ambos os lados tentam calibrar a resposta para não cruzar a linha vermelha que levaria à catástrofe.
Apesar da retórica inflamada, é provável que existam canais de comunicação indiretos (backchannels) entre os atores envolvidos, muitas vezes mediados por terceiros países (como Catar ou Suíça). Esses canais servem justamente para evitar mal-entendidos que possam desencadear uma escalada fora de controle. O objetivo, para todos, é garantir a própria segurança e projeção de poder, não o suicídio coletivo.
Portanto, a visão otimista não é acreditar que a paz perpétua chegou, mas sim confiar que o sistema internacional, por mais caótico que pareça, desenvolveu mecanismos (ainda que imperfeitos) para evitar sua própria autodestruição. A situação é gravíssima e exige vigilância, mas o salto para a “Terceira Guerra Mundial” não é automático nem inevitável.
Desafios e Oportunidades
O Brasil, com sua tradição histórica de não alinhamento e busca por soluções pacíficas de controvérsias, enfrenta um cenário delicado. A recente troca de farpas entre Brasil e Israel ilustra perfeitamente como o conflito global já afeta o país diretamente .
Como o Brasil será afetado?
A principal pressão será para que o Brasil tome partido. Os EUA, como principal aliado extra-OTAN e potência ocidental, tradicionalmente esperam alinhamento de países do continente americano. Por outro lado, o Brasil tem interesses comerciais significativos com o mundo árabe e com o Irã, especialmente no agronegócio. Manter o equilíbrio será um exercício de alta diplomacia para o Itamaraty.
A disputa retórica com Israel expõe como as tensões do Oriente Médio podem ter ramificações no Brasil. A acusação israelense (sem provas) de que o Hezbollah (grupo xiita libanês apoiado pelo Irã) estaria operando no Brasil é um sinal de alerta. Isso força o aparato de inteligência e segurança brasileiro a redobrar a atenção para células terroristas ou atividades de grupos extremistas em seu território, algo que antes parecia distante.
O Desafio da Coesão Interna
A postura do governo brasileiro em relação ao conflito pode gerar polarização interna. A comunidade judaica no Brasil, com forte influência econômica e política, tende a apoiar Israel. Já a vasta comunidade de descendentes de árabes (sírios, libaneses) e movimentos políticos de esquerda tendem a ser mais críticos às ações israelenses e pró-Palestina. O governo Lula precisa navegar nesse campo minado para evitar que a política externa se transforme em mais um combustível para a divisão interna.
Protagonismo Brasileiro
Num momento de radicalização, um país com a estatura do Brasil, que mantém diálogo tanto com o Ocidente quanto com o Sul Global, pode tentar se posicionar como um “país ponte” ou um “facilitador de diálogo”. A recusa em aceitar interferências estrangeiras em suas investigações é uma afirmação de soberania, mas a diplomacia brasileira poderia ir além, oferecendo-se para mediar entendimentos ou, no mínimo, defendendo nos fóruns multilaterais (como a ONU) a necessidade de desescalada e respeito ao direito internacional.
Em suma, embora não haja motivos para um otimismo ingênuo, também não há razão para o pânico. O mundo vive um momento de perigosa instabilidade, mas as forças que poderiam levar a uma guerra mundial total são, por enquanto, contrabalanceadas pelo medo e pela interdependência. Para o Brasil, o caminho será o da corda bamba: defender sua autonomia, proteger seus cidadãos das repercussões do conflito e, quem sabe, usar sua credibilidade histórica para defender a paz.
Fonte: HOJE BAHIA
