O governo federal não deve realizar uma nova edição do CNU (Concurso Nacional Unificado) em 2026, ano eleitoral. Com isso, candidatos ao serviço público terão de concentrar a preparação em outros concursos, que devem ser a principal porta de entrada para vagas federais, estaduais e municipais no próximo ano.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o calendário eleitoral não impede a publicação de editais nem a aplicação de provas, mas impõe restrições às nomeações em parte do ano. As restrições passam a valer três meses antes do primeiro turno, previsto para ocorrer em 4 de outubro.
O professor Bruno Bezerra, do Estratégia Concursos, diz que o candidato deve seguir focado e ficar atento em outros editais. “O ano eleitoral não deve ser visto como um impeditivo para estudar. Os concursos continuam acontecendo, os editais continuam sendo publicados e quem mantém uma preparação consistente chega muito mais competitivo quando surgem as oportunidades”, diz.
O coodernador pedagógico do Qconcursos Luiz Rezende aponta como destaque áreas como o Judiciário, tribunais de contas e ministérios públicos, que podem nomear aprovados e fazer seleções.
Embora não ocorra a realização do concurso federal, Alexandre Retamal, coordenador logístico do CNU, diz que a seleção unificada se consolidou como política pública bem-sucedida e estados e municípios têm seguido a fórmula.
O CNU chegou a receber dois prêmios, de inovação em serviços públicos, e espírito público na categoria gestão de pessoas. “O Concurso Público Nacional Unificado está cada vez mais consolidando como uma política pública. É um assunto que está sendo tratado na própria proposta de reforma administrativa, que é um projeto prioritário para o governo atual”, diz.
Carreiras que devem concentrar as oportunidades em 2026
Segundo Anna Rodrigues, head de conteúdo do Gran Concursos, no âmbito federal, entre os concursos que devem ter destaque estão: INSS, PRF, Receita Federal, CGU, AGU, Banco do Brasil, Câmara dos Deputados, Banco Central, EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), Anatel, Aneel, ANAC, Ministério de Minas e Energia, CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Ministério da Defesa, Ministério dos Transportes, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Saúde, além do concurso de diplomata e das seleções para ingresso nas Forças Armadas.
Já na esfera estadual, Anna afirma que a maior parte das vagas deve se concentrar nas áreas de educação, administração, policial e de saúde, além das forças de segurança, embora haja oportunidades em diferentes carreiras.
“Em alguns casos, como nos tribunais e carreiras jurídicas, o número de vagas imediatas oferecidas é baixo ou apenas para cadastro de reserva, mas o número de nomeações ultrapassa em muito as previsões iniciais”, diz Anna.
Entre os concursos municipais, alguns dos destaques citados pela especialista são SEMED Betim (MG), Prefeitura de Valparaíso (GO), SBS Belo Horizonte, Câmara de Goiânia (GO), SEMUSA Porto Velho (RO), ISS Belém (PA), ISS Manaus (AM), URB Recife, Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, além das prefeituras de Salvador (BA), Recife (PE), Curitiba (PR), Boa Vista (RO), Campinas (SP), Olinda (PE), Joinville (SC), Macaé (RJ), Cajazeiras (PB), Feira de Santana (BA) e Criciúma (SC).
As carreiras jurídicas, como delegado, promotor, procurador e juiz, além dos cargos de técnico e analista em tribunais e nas câmaras legislativas e do cargo de auditor fiscal, tendem a concentrar as maiores remunerações em 2026, com salários iniciais que podem ultrapassar R$ 30 mil.
Segundo Anna, isso ocorre porque se tratam de cargos essenciais para o funcionamento do Estado, que exigem alta qualificação técnica, amplo conhecimento jurídico ou contábil e envolvem grande responsabilidade na tomada de decisões.
Redistribuição da concorrência e mudança nos planos de estudo
A ausência do CNU tende a redistribuir a concorrência. Candidatos que vinham apostando em uma preparação unificada devem migrar para concursos específicos, o que pode elevar a disputa em seleções tradicionais e favorecer quem já tem foco definido em uma carreira.
Letícia Bastos, professora de português do Gran Concursos, afirma que quem estava focado no CNU e agora migra para outros concursos precisa evitar o erro de insistir em um plano de estudos excessivamente moldado ao formato do concurso unificado, sem adaptação às exigências específicas de outras bancas e órgãos.
“Cada concurso tem seu perfil: algumas seleções cobram conteúdo mais técnico e aprofundado; outras priorizam atualidades ou raciocínio lógico. Manter-se preso à estrutura do CNU pode levar a lacunas relevantes. O ideal é reavaliar os editais em andamento e ajustar cronogramas e prioridades com base em conteúdos mais prováveis e bancas definidas”, diz a professora.
Para quem vê 2026 como uma oportunidade de iniciar a preparação para concursos, Letícia afirma que o diferencial está na construção de uma base sólida em disciplinas comuns e estratégicas, como língua portuguesa, raciocínio lógico, administração pública e direito constitucional.
“Sem um concurso unificado, o cenário exige que o candidato esteja preparado para editais distintos e bancas variadas. Assim, mais do que tentar abraçar tudo, é essencial seguir uma trilha coerente, com planejamento, bons materiais e revisão constante”, diz Letícia.
Perfil esperado para os novos servidores
Nas duas últimas edições do CNU, o governo tem sinalizado a busca por um servidor com visão de políticas públicas e atuação transversal. Segundo Bruno Bezerra, professor do Estratégia Concursos, concursos federais de grande porte tendem a influenciar o desenho de outras seleções, inclusive as regionalizadas.
“O próprio CNU foi pensado como um modelo que privilegia uma visão mais ampla do Estado, com servidores capazes de compreender políticas públicas, atuar de forma integrada e dialogar com diferentes áreas da administração”, diz o professor. Um exemplo citado por Bezerra é o concurso regionalizado do Estado de Pernambuco, que adotou uma lógica semelhante à do CNU, com organização por áreas e conteúdos transversais.
O professor diz, no entanto, que, apesar de o discurso do governo apontar para provas mais interpretativas, na prática, o formato depende da banca organizadora. Ele afirma que o primeiro CNU, organizado pela Cesgranrio, apresentou uma prova conteudista, com cobrança de memorização. Já o segundo CNU, sob a FGV, trouxe estudos de caso e textos longos.
Luiz Rezende, do Qconcursos, afirma ainda que o perfil buscado nos concursos recentes exige compreensão do papel da administração pública, além de atenção a temas como ética e cidadania. Os candidatos devem se atentar a disciplinas como administração geral e pública, governança, sustentabilidade, cultura organizacional e ética, que têm se tornado cada vez mais relevantes nas provas.
CNU pode ser exemplo de logística e combate às fraudes
Alexandre Retamal, coordenador logístico do CNU, comenta sobre as fraudes em investigação e destaca como a Polícia Federal atuou para coibir a ação de golpistas, modelo que pode ser replicado em outras seleções. Ele destacou as apurações da PF e da Justiça, com eliminação dos envolvidos e cumprimento das decisões judiciais.
O especialista afirma que o uso de identificação biométrica e coleta de dados foi fundamental para permitir a atuação policial e impedir o sucesso de organizações criminosas. Medidas que podem ser adotadas em outros concursos.
Por fim, Retamal garantiu que o cronograma de distribuição, aplicação e recolhimento das provas segue dentro do previsto e que a segurança é papel fundamental para a lisura de uma seleção.
Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO