Como sobreviver ao Dia da Mentira

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Não é um dia comum. É um dia no qual o café pode não estar quente, o “bom dia” pode ser suspeito e até o “eu te amo” exige confirmação em duas vias e firma reconhecida no cartório Marback (se é que ele ainda existe).

O brasileiro, naturalmente criativo, trata o Dia da Mentira como uma espécie de campeonato nacional de pequenas traquinagens, ou pegadinhas, como dizem hoje em dia. Não valem mentiras grandes – essas já ocupam espaço demais no noticiário, quando se tornaram incumbências dos políticos, mas sim aquelas mentirinhas artesanais, feitas à mão, com capricho e, de preferência, algum talento dramático.

Tem sempre o amigo que liga cedo: rapaz, você viu que decretaram feriado hoje?

E você, já meio esperançoso, meio desconfiado, abre um sorriso que dura exatos três segundos – o tempo necessário para lembrar da data. A esperança morre rápido, mas morre rindo.

Há também o clássico familiar: – Fulano ganhou na Mega Sena!

Essa é cruel. Porque por um breve instante, o cérebro faz contas, planeja viagens, perdoa parentes distantes e até considera comprar uma casa de frente pro mar no condomínio Arauá. Tudo isso antes de perceber que continua devendo a fatura do cartão de crédito.

Mas o verdadeiro artista do 1º de abril não é o que inventa a mentira mais absurda. É o que conta a mentira possível. Aquela que escorre suave, como conversa de fim de tarde. A mentira que poderia ser verdade – e por isso mesmo nos pega desprevenidos, de guarda baixa, sem capacete emocional.

É quase uma arte filosófica. Uma provocação leve: afinal, quantas verdades a gente acredita sem questionar? E quantas mentiras a gente aceita só porque parecem confortáveis?

No fundo, o Dia da Mentira é menos sobre enganar os outros e mais sobre revelar o quanto somos, todos nós, um pouco cúmplices da ilusão. Gostamos de acreditar no que nos convém. No elogio exagerado, na promessa fácil, na notícia boa demais para ser verdade.

Talvez por isso o dia termine sempre com risadas. Porque, no fim das contas, ninguém se sente realmente enganado. Apenas lembrado.

Lembrado de que a verdade é um bicho sério demais para viver sem férias.

E a mentira… ah, a mentira é só uma criança levada, que apronta uma vez por ano e depois volta para o seu canto, assobiando inocência.

Ou pelo menos é isso que ela diz.

E, sinceramente, hoje eu não confio em mais nada.



Fonte: HOJE BAHIA

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