De deuses venerados no Antigo Egito a figurinhas no WhatsApp, os gatos atravessam a história ocupando um lugar singular na cultura humana. Já foram símbolos religiosos, alvos de perseguição, amuletos de sorte, personagens políticos e, hoje, são protagonistas da cultura pop.
Com a popularização das redes sociais, vídeos curtos e imagens de gatos passaram a ocupar um novo papel.
Expressões faciais, gestos e reações que só os felinos podem encenar com naturalidade foram incorporados como respostas a mensagens, funcionando como comentários, reações e memes capazes de sintetizar emoções sem sequer precisar usar palavras.
Multifacetados
Em diferentes culturas, os gatos assumiram papéis simbólicos variados.
No Antigo Egito, eram associados à deusa Bastet, ligada à proteção do lar, à fertilidade e à saúde. Os animais eram tão venerados que, segundo relatos históricos, sua morte era motivo de luto ritualizado.
Já no leste asiático, os felinos passaram a representar sorte e prosperidade. No Japão, o Maneki-Neko — o gato com a pata levantada — tornou-se um dos símbolos mais difundidos da cultura popular, presente em comércios, residências e, mais recentemente, em versões digitais.
Nem tudo são flores
A história dos gatos, porém, também inclui momentos de rejeição e violência. Na Europa medieval, os felinos foram associados ao mal, à bruxaria e à heresia, sendo perseguidos e exterminados em larga escala.
Paradoxalmente, esse afastamento pode ter contribuído para a proliferação de roedores e doenças, reforçando mais tarde a reabilitação do animal como aliado humano.
Tal oscilação entre veneração e desconfiança ajudou a consolidar a imagem do gato como uma figura multifacetada — independente, imprevisível e resistente à domesticação plena.
No mundo contemporâneo, essa ambiguidade encontrou terreno fértil na cultura digital. A partir dos anos 1990, com a popularização da internet, as imagens e vídeos de gatos começaram a circular rapidamente entre usuários, antecipando práticas que mais tarde se consolidariam nas redes sociais.
Já nos anos 2000, personagens como o Bento, conhecido mundialmente como o “Gato no Teclado” — falecido em 2018 — ajudaram a transformar os felinos em ícones globais da internet.
Nesses ultimos dias o céu recebeu um dos maiores tecladistas que ja pisou na face da terra, descanse em paz, Bento, keyboard cat…😥 pic.twitter.com/scnjbaU2B5
— 🥷 (@Darwinn_1) March 18, 2018
Com a popularização dos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, imagens dos felinos passaram a circular também no formato de figurinhas, utilizadas para expressar emoções.
Parceria antiga
- A relação entre humanos e gatos remonta a mais de 10 mil anos, quando os felinos se aproximaram das primeiras comunidades agrícolas do Oriente Médio.
- A habilidade de caçar roedores fez com que passassem a circular entre armazéns de grãos e assentamentos humanos, com uma parceria sendo estabelecida.
- Com o tempo, os gatos se espalharam pelo mundo, levados inclusive em navios, e hoje estão presentes em todos os continentes, com exceção da Antártida.
Na “caixinha” política
Esse trânsito entre o afeto, o simbólico e o poder ajuda a explicar por que os gatos também passaram a ocupar espaços políticos e institucionais.
Um dos exemplos mais conhecidos é Larry, o gato residente da sede do governo britânico, em Downing Street, que frequentemente aparece em registros oficiais e cenas diplomáticas, rendendo comentários bem-humorados nas redes sociais.
Em meio a encontros de líderes mundiais, o felino se tornou um personagem simbólico.
A força simbólica dos gatos também alcança o debate intelectual. No livro Marx para gatos: um bestiário radical, a autora Leigh Claire La Berge coloca a leitura do pensamento marxista a partir da presença dos felinos na história econômica e cultural do Ocidente.