A vitória da comunista Jeannette Jara no primeiro turno das eleições chilenas, no domingo (16/11), teve sabor amargo. Embora tenha terminado na frente, a candidata do Partido Comunista e ex-ministra do Trabalho de Gabriel Boric chega em desvantagem para o segundo turno contra José Antonio Kast, líder da direita.
Os números deixam isso evidente: juntos, os partidos de direita somaram 52% dos votos, colocando Kast em posição privilegiada na disputa marcada para 14 de dezembro. Jara ficou somente três pontos percentuais à frente do adversário, escancarando um desempenho bem abaixo das projeções iniciais.
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Diante do resultado considerado tímido, Jara usou o primeiro discurso pós-eleição para tentar mobilizar o eleitorado. Em tom de advertência, apelou para o risco do avanço da direita e criticou Kast por transformar o medo em plataforma política.
“Não deixem que o medo congele seus corações”, afirmou. “O medo deve ser combatido com mais segurança para as famílias e não com soluções imaginárias criadas por mentes radicais que precisam se esconder atrás de vidros blindados.”
A fala foi uma referência direta ao comício de encerramento da campanha de Kast, no qual o candidato discursou protegido por vidro à prova de balas.
Polarização em alta
De um lado, Jara representa o campo progressista, com o apoio do governo Boric. Do outro, Kast consolidou uma frente ampla da direita, após receber, na noite de domingo, o apoio público de Johannes Kaiser, expoente da ala mais radical, e de Evelyn Matthei, liderança da direita tradicional.
O populista Franco Parisi, terceiro colocado e dono de um eleitorado imprevisível, decidiu não declarar apoio a nenhum dos dois candidatos.
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Jeannette Jara (Partido Comunista) e José Antonio Kast (Partido Republicano) durante comícios no Chile
Anadolu/Getty Images 
Jeannette Jara, favorita nas eleições chilenas
Claudio Santana/Getty Images
Kast tenta se moderar e Jara conquistar o centro
Aos 59 anos, Kast tenta pela terceira vez chegar ao Palácio de La Moneda. Moderou o discurso em comparação às campanhas anteriores e suavizou as referências elogiosas ao regime ditatorial de Augusto Pinochet. Ainda assim, suas propostas linhas duras encontram eco em figuras como Kaiser, conhecido por posições polêmicas, que vão da crítica ao voto feminino à defesa aberta da ditadura militar.
Para Jara, de 51, o caminho até o segundo turno é mais complexo. Embora se considere comunista, a trajetória no governo Boric e o discurso mais pragmático podem ajudá-la a buscar eleitores moderados que não se veem representados por nenhum dos polos.